Prólogo
Quando você é filha de um astro britânico, as pessoas presumem que você se acostuma com a realeza. Como se viver cercada de luxo e formalidades fosse um treinamento natural para entrar nesse mundo. Mas a verdade é que eu sempre estive do lado de fora, assistindo tudo pela vitrine. Meu pai, sim, fazia parte — sorria para as câmeras, conversava com lordes e ministros como se fossem colegas de pub. Eu, não. Eu era a filha. A nota de rodapé.
O convite chegou em um envelope grosso, dourado, com o selo real em alto-relevo. Aquela coisa gritava importância e cuidado pra não manchar com os dedos. A rainha estava oferecendo um jantar “informal” para poucos convidados — e, pela primeira vez, meu nome não estava só como “acompanhante de”.
No carro, meu pai me olhou como se eu estivesse prestes a pular de um penhasco.
— Só seja você, . Mas talvez... um pouco menos você, do que o normal. — Ele riu sem graça, tentando ajeitar meu cabelo com a ponta dos dedos.
— Eu sei me comportar. — respondi. Só não sabia fingir.
Seis horas antes…
Estava sentada no corredor da Saint Claire, encostada na parede, com afinando a guitarra e Emily treinando alguns passos de dança, como se ninguém pudesse interromper. Esse era o meu mundo: barulhento, sincero, caótico e livre.
— Então, “Lady ”, pronta pro seu jantar com a realeza? — falou, debochado, sem levantar os olhos das cordas.
Revirei os olhos.
— Não me chama assim. Parece que eu vou virar estátua de cera.
Emily gargalhou, girando no ritmo da música que só ela escutava.
— Ai, amiga, admite. Você ama ser diferente. Enquanto a gente tá aqui ensaiando pra audição de sexta, você vai jantar com a rainha. A rainha, . Isso não é uma quarta-feira normal.
Cruzei os braços.
— Vocês falam como se fosse um sonho. Mas é só mais um lugar onde eu não pertenço. Eles vão me olhar como “a filha daquele ator famoso” e nada mais.
levantou os olhos dessa vez. O jeito que ele olhava sempre me desmontava, meio sério, meio preocupado.
— Então fica aqui. Não vai. — disse simples, como se fosse óbvio. — Canta com a gente hoje, e pronto.
Meu coração apertou. Parte de mim queria aceitar sem pensar duas vezes. Ficar. Viver só desse caos que fazia sentido. Mas não era tão simples.
— Eu não posso. — respondi baixinho. — Meu pai… espera isso de mim.
Ele suspirou, voltou a dedilhar a guitarra. Emily parou de dançar só pra soltar, afiada:
— É isso, né? O mundo sempre esperando algo de você.
Eu sorri de canto. Era exatamente isso. E, por mais que eu não soubesse ainda, naquela noite algo ia mudar. Algo que me tiraria daquele corredor abafado da escola de artes e me colocaria no centro do maior palco que eu nunca pedi pra pisar.
Chegamos ao Palácio de Kensington. Salão reluzente, gente importante demais em cada canto. Eu queria sair correndo — não porque era chato, mas porque era surreal. Como um teatro onde todos sabiam o papel menos eu.
E então ele apareceu.
.
O neto da rainha. O príncipe de verdade, mas com cara de garoto que vivia colando em prova de matemática.
Ele usava um terno azul escuro, nada exagerado, mas alinhado como se tivesse nascido dentro dele. Os cabelos ruivos, meio bagunçados, pareciam um protesto silencioso contra todo aquele rigor. Quando nossos olhos se encontraram, ele sorriu com uma tranquilidade quase provocativa, como quem sabe que o mundo gira em volta do próprio eixo — e que o eixo é ele.
— . Até que enfim. — disse ele, como se já fôssemos íntimos e estivéssemos atrasados para algo só nosso.
Minhas mãos suavam. Sorri, meio travada, sem saber onde enfiar os braços.
— Fala como se me conhecesse.
— Quem disse que não?
Ele se aproximou — com aquele tipo de educação calculada que não invade, mas ocupa espaço. Chegou perto o suficiente pra eu sentir o perfume caro. Madeira, algo ambarado… e uma nota estranha de autoconfiança absoluta.
— Minha avó vive falando de você. Está obcecada, pra ser honesto. Já era fã do seu pai, agora resolveu que você é... promissora. — As palavras foram dele, mas o olhar parecia ser só dele mesmo.
— Que honra. Ou que medo. — murmurei, rindo sem graça.
Ele riu também. Mas não aquele riso protocolar, polido. Riu de verdade. Riu com os olhos.
A conversa fluiu por uns quinze minutos, talvez mais. O salão parecia ter entrado em modo mudo. Ele me perguntava sobre música — o que eu gostava de cantar, se escrevia minhas próprias letras. Eu respondia como sempre respondo: com honestidade. Porque uma coisa sobre mim é que eu nunca sou falsa. Posso ajustar o tom, aparar as pontas, me adaptar um pouco — mas mentir? Não. Nem sabia como.
Modéstia à parte, eu era boa de papo. Sabia falar sobre política, esporte, cultura pop, desigualdade, arte. Sempre fui boa aluna, boa em conquistar as pessoas. Mas fazia isso do meu jeito. Sem forçar. Era o tipo de garota que os adultos chamam de “intensa”, e os garotos… de “diferente”.
Mas ali, naquele instante, nada disso pesava. Só existia ele. O momento. A leveza improvável. O jeito que ele me fazia esquecer que era príncipe — e me fazia sentir como se fosse só um garoto tentando descobrir quem era no meio de tudo.
Tudo parecia perfeito.
E, pela primeira vez, eu quis muito acreditar que talvez fosse mesmo.
O convite chegou em um envelope grosso, dourado, com o selo real em alto-relevo. Aquela coisa gritava importância e cuidado pra não manchar com os dedos. A rainha estava oferecendo um jantar “informal” para poucos convidados — e, pela primeira vez, meu nome não estava só como “acompanhante de”.
No carro, meu pai me olhou como se eu estivesse prestes a pular de um penhasco.
— Só seja você, . Mas talvez... um pouco menos você, do que o normal. — Ele riu sem graça, tentando ajeitar meu cabelo com a ponta dos dedos.
— Eu sei me comportar. — respondi. Só não sabia fingir.
Seis horas antes…
Estava sentada no corredor da Saint Claire, encostada na parede, com afinando a guitarra e Emily treinando alguns passos de dança, como se ninguém pudesse interromper. Esse era o meu mundo: barulhento, sincero, caótico e livre.
— Então, “Lady ”, pronta pro seu jantar com a realeza? — falou, debochado, sem levantar os olhos das cordas.
Revirei os olhos.
— Não me chama assim. Parece que eu vou virar estátua de cera.
Emily gargalhou, girando no ritmo da música que só ela escutava.
— Ai, amiga, admite. Você ama ser diferente. Enquanto a gente tá aqui ensaiando pra audição de sexta, você vai jantar com a rainha. A rainha, . Isso não é uma quarta-feira normal.
Cruzei os braços.
— Vocês falam como se fosse um sonho. Mas é só mais um lugar onde eu não pertenço. Eles vão me olhar como “a filha daquele ator famoso” e nada mais.
levantou os olhos dessa vez. O jeito que ele olhava sempre me desmontava, meio sério, meio preocupado.
— Então fica aqui. Não vai. — disse simples, como se fosse óbvio. — Canta com a gente hoje, e pronto.
Meu coração apertou. Parte de mim queria aceitar sem pensar duas vezes. Ficar. Viver só desse caos que fazia sentido. Mas não era tão simples.
— Eu não posso. — respondi baixinho. — Meu pai… espera isso de mim.
Ele suspirou, voltou a dedilhar a guitarra. Emily parou de dançar só pra soltar, afiada:
— É isso, né? O mundo sempre esperando algo de você.
Eu sorri de canto. Era exatamente isso. E, por mais que eu não soubesse ainda, naquela noite algo ia mudar. Algo que me tiraria daquele corredor abafado da escola de artes e me colocaria no centro do maior palco que eu nunca pedi pra pisar.
Chegamos ao Palácio de Kensington. Salão reluzente, gente importante demais em cada canto. Eu queria sair correndo — não porque era chato, mas porque era surreal. Como um teatro onde todos sabiam o papel menos eu.
E então ele apareceu.
.
O neto da rainha. O príncipe de verdade, mas com cara de garoto que vivia colando em prova de matemática.
Ele usava um terno azul escuro, nada exagerado, mas alinhado como se tivesse nascido dentro dele. Os cabelos ruivos, meio bagunçados, pareciam um protesto silencioso contra todo aquele rigor. Quando nossos olhos se encontraram, ele sorriu com uma tranquilidade quase provocativa, como quem sabe que o mundo gira em volta do próprio eixo — e que o eixo é ele.
— . Até que enfim. — disse ele, como se já fôssemos íntimos e estivéssemos atrasados para algo só nosso.
Minhas mãos suavam. Sorri, meio travada, sem saber onde enfiar os braços.
— Fala como se me conhecesse.
— Quem disse que não?
Ele se aproximou — com aquele tipo de educação calculada que não invade, mas ocupa espaço. Chegou perto o suficiente pra eu sentir o perfume caro. Madeira, algo ambarado… e uma nota estranha de autoconfiança absoluta.
— Minha avó vive falando de você. Está obcecada, pra ser honesto. Já era fã do seu pai, agora resolveu que você é... promissora. — As palavras foram dele, mas o olhar parecia ser só dele mesmo.
— Que honra. Ou que medo. — murmurei, rindo sem graça.
Ele riu também. Mas não aquele riso protocolar, polido. Riu de verdade. Riu com os olhos.
A conversa fluiu por uns quinze minutos, talvez mais. O salão parecia ter entrado em modo mudo. Ele me perguntava sobre música — o que eu gostava de cantar, se escrevia minhas próprias letras. Eu respondia como sempre respondo: com honestidade. Porque uma coisa sobre mim é que eu nunca sou falsa. Posso ajustar o tom, aparar as pontas, me adaptar um pouco — mas mentir? Não. Nem sabia como.
Modéstia à parte, eu era boa de papo. Sabia falar sobre política, esporte, cultura pop, desigualdade, arte. Sempre fui boa aluna, boa em conquistar as pessoas. Mas fazia isso do meu jeito. Sem forçar. Era o tipo de garota que os adultos chamam de “intensa”, e os garotos… de “diferente”.
Mas ali, naquele instante, nada disso pesava. Só existia ele. O momento. A leveza improvável. O jeito que ele me fazia esquecer que era príncipe — e me fazia sentir como se fosse só um garoto tentando descobrir quem era no meio de tudo.
Tudo parecia perfeito.
E, pela primeira vez, eu quis muito acreditar que talvez fosse mesmo.
Capítulo 01
O som do café era familiar: xícaras tilintando, gente falando alto demais nas mesas, e uma playlist indie velha que eu sempre fingia odiar, mas conhecia de cor. Era o nosso lugar. Nosso respiro em meio ao caos.
Eu, Emily e estávamos jogados na mesa do canto, com cappuccinos e biscoitos que a gente nunca terminava. Emily me encarava com aquele olhar de “fala logo o que tá acontecendo” enquanto batucava com a colher no copo, impaciente.
— Então? — Emily ergueu uma sobrancelha. — Vai ficar me enrolando ou vai contar o que aconteceu naquele jantar real?
Suspirei.
— Ele é... diferente, Em. Não do tipo “sou especial”, mas do tipo que sabe que tá num lugar onde todo mundo finge. E mesmo assim, tenta ser ele. Ou pelo menos, parece tentar.
parou o batucar. O som metálico ficou no ar, suspenso. Emily soltou uma risadinha seca.
— “Parece”. Boa escolha de palavra.
— Tá sendo muito cética. Eu gostei dele. — confessei, sentindo o olhar de queimar na lateral do meu rosto. — De verdade.
Emily riu de novo, mas agora sem humor nenhum.
— Eu sei. E é por isso que eu tô preocupada.
Dei um gole no café. Queimou a língua. Perfeito.
— Sabe, às vezes eu penso em levar essa coisa da música a sério. Cantar de verdade. Compor mais. Me mostrar como eu sou. — As palavras saíram num quase sussurro. — Talvez... fazer disso minha carreira.
Emily me olhou como se estivesse esperando ouvir aquilo há anos.
— Sim, . Finalmente. Você é talentosa demais pra ficar só postando cover no Instagram e cantando em festa de aniversário de sobrinha do diretor.
— Mas aí vem essa história do . Da rainha. Desse mundo que parece um reality show com regras do século passado.
Ela se encostou na cadeira, cruzando os braços.
— Então me responde uma coisa: você quer ser cantora... ou princesa? Porque os dois não dá.
Fiquei em silêncio. Não porque eu não sabia a resposta. Mas porque ela doía mais do que eu esperava.
— Não é tão preto no branco assim... — murmurei.
— Claro que é. — Emily baixou o tom, firme. — , eu estudei com o .
Levantei os olhos na mesma hora. também.
— O quê?
Ela deu de ombros, desconfortável.
— Meus pais trabalharam em Londres por uns anos, lembra? Me colocaram no colégio St. Andrew. estudava lá. Eu vi quem ele era quando ninguém importante tava olhando.
— As pessoas mudam, Em. — falei, meio na defensiva.
— Mudam. Mas não em três meses. E não quando têm fama, bajulação e liberdade ilimitada. Ele era... cruel. Manipulador. Tinha um jeito de brincar com as pessoas que parecia carinhoso, mas era controle. Com as garotas então... nem se fala.
— Que garotas? — perguntei, a voz mais fina do que eu queria
Emily respirou fundo.
— Uma delas era minha colega de quarto. Ele brincava, flertava, sumia... depois voltava como se nada tivesse acontecido. E elas aceitavam, porque era o príncipe. Mas ele era frio. Sem empatia.
Fiquei quieta. Uma parte de mim queria levantar e sair. Outra queria acreditar que aquilo tudo era exagero.
— Eu não sou elas. — falei por fim.
Emily me encarou com uma expressão que misturava dor e ternura.
— Eu sei. Mas ele também sabe. E é isso que me assusta.
, que tinha ficado calado até então, largou a colher na mesa com força.
— Exato. — murmurou, sem me olhar. — Você não é como elas. E ele vai adorar isso.
— Eu sou forte. — insisti, tentando segurar minha voz firme. — Se no mínimo sinal ele for esse cara que você tá dizendo... eu caio fora. Sem drama.
Emily suspirou.
— Eu confio em você. Só não confio nele.
— Então relaxa. — Forcei um sorriso. — Eu prometo que não vou deixar ninguém apagar quem eu sou. Nem por amor. Nem por coroa.
Emily retribuiu o sorriso, meio triste.
— Tomara que você não precise provar isso do jeito mais difícil.
Do meu lado, não sorriu. Ele só encarava o café frio, como se já soubesse que promessa nenhuma ia me salvar.
Fazia semanas que nos víamos em silêncio. Não no sentido literal — mas no tipo de silêncio que a imprensa, a realeza e até meu pai fingiam não ver. Passeios escondidos pelos corredores do palácio, conversas sussurradas durante jantares formais, toques rápidos em meio a multidões importantes. sabia como fazer tudo parecer casual... e ainda assim, único.
Naquela noite, tudo estava mais intenso. O salão estava lotado, cheio de convidados ilustres, discursos longos e taças tilintando no fundo. Eu usava um vestido alugado e um sorriso emprestado, tentando manter a postura de “filha do ator favorito da rainha”. Mas meus olhos o procuravam. Sempre.
Ele apareceu do nada, como sempre fazia. Um sussurro atrás do meu ombro.
— Quer fugir?
Me virei. Ele vestia um blazer claro, desabotoado, com aquele ar de desleixo charmoso que só ele conseguia carregar sem parecer infantil.
— Agora? — perguntei, em um tom que era mais riso do que dúvida.
— Agora. — disse, estendendo a mão como se eu tivesse escolha.
Peguei.
Passamos por duas portas laterais, atravessamos uma ala vazia do palácio e saímos por uma porta lateral. Ele conhecia todos os caminhos secretos. Me levou até um jardim interno, fechado por cercas vivas e iluminado apenas por algumas lanternas pequenas espalhadas no chão de pedra.
Era silencioso. Puro. Um lugar que parecia dele — mas, por algum motivo, ele quis dividir comigo.
— Esse é o jardim de ninguém. — disse ele, como se lesse meus pensamentos. — Todo mundo acha que pertence ao rei anterior. Mas nunca foi declarado oficial. Nem os guias turísticos conhecem. Só quem vive aqui.
— E você vive aqui? — perguntei. Eu não sabia direito onde cada ramo da família real morava, quais eram os critérios, como funcionava esse jogo de castelos.
— Cresci aqui. Viver... é outra coisa.
Ficamos em silêncio por um momento. A noite estava fria, mas agradável. As flores exalavam um cheiro leve, quase tímido.
Ele se virou pra mim, com aquele sorriso que não era de príncipe — era só de garoto.
— Você é diferente de tudo isso. De todo mundo. Eu nunca... — ele hesitou, buscando as palavras. — Nunca conheci alguém que fizesse parecer que eu podia respirar.
Meu coração tropeçou.
— Você sabe o que dizer. — retruquei, quase sorrindo.
— Você é tão linda. Me faz querer te conhecer muito mais.
— Você pode conhecer.
Por um segundo, tudo parou. O ar, o tempo, até as lanternas pareciam respirar mais devagar. Ele deu um passo à frente.
— Posso? — perguntou, estendendo a mão de novo. Só que dessa vez, não era pra fugir.
— Isso aqui é um baile agora?
— Só pra dois.
Coloquei minha mão na dele, rindo. Ele me puxou devagar. Começamos a dançar no ritmo de uma música que não existia. Meus pés tropeçavam um pouco — não por falta de jeito, mas pelo coração acelerado.
— Você dança mal. — provoquei.
— Eu danço como alguém que não se importa com nada além de você estar aqui.
Eu poderia dizer que não fui conquistada por essa frase. Poderia fingir que resisti, que mantive minha pose. Mas estaria mentindo. Eu senti meu peito se abrir, como se algo estivesse desarmando dentro de mim.
Naquela noite, eu me permiti acreditar que talvez... fosse possível confiar nele.
Porque tudo parecia bonito demais para ser mentira.
E então, eu perguntei. Não como quem desconfia, mas como quem quer entender.
— Por que sua avó quer tanto que você namore?
Ele olhou pra mim por alguns segundos. Não como quem não sabe a resposta, mas como quem se pergunta se deve dizer a verdade.
— Porque você apareceu. E ela te achou... encantadora. — disse com sinceridade, sem ironia. — E também porque, nesse mundo, tudo precisa parecer sob controle o tempo inteiro. Até a nossa vida afetiva. E eu... bom, tenho um histórico de fugir desse controle. De dar trabalho.
— Então isso é um plano de contenção?
— Mais ou menos. Aqui, ninguém manda diretamente. Mandam com sorrisos, conselhos, “cuidados”. É uma dança. Ninguém te prende, mas também não te deixam escapar de verdade.
— E você dança?
— Às vezes. Mas às vezes... — ele me puxou um pouco mais perto — ...eu fujo pro jardim de ninguém.
Mesmo sem música, sem plateia, sem aprovação de ninguém… foi o momento mais real que eu já tinha vivido com ele.
era alto, mesmo sendo jovem. Não sei até que altura os garotos crescem, mas ele já parecia ter crescido o suficiente pra sempre parecer dois passos à frente. E bonito… ele era muito bonito. As sardas espalhadas pelo rosto davam a ele um ar despreocupado, quase de verão. Aquelas sardas eram o tipo de detalhe que fazia alguém parecer mais humano — ou mais irresistível.
E ele sabia disso. Ou, pelo menos, agia como se não soubesse — o que, sinceramente, era ainda mais perigoso.
Além disso, era atlético. Obviamente. Ele praticava todos os esportes possíveis. Corria, nadava, jogava polo, esgrima, rugby... e qualquer outra coisa que envolvesse uniforme e aplausos. Esse era outro motivo pelo qual chamava atenção por onde passava. Eu via — em encontros, eventos, jantares — como os olhos se voltavam para ele. Especialmente os das garotas.
Toda garota queria namorar um príncipe. Era o tipo de coisa que parecia saído de um conto de fadas, mesmo quando você sabia que o final feliz podia ter cláusulas.
Mas comigo... era diferente. Pelo menos, eu queria acreditar que era. Ele me olhava como se eu não fosse só mais uma. Como se o mundo ficasse mais silencioso quando eu entrava na sala. E, naquela noite, no jardim de ninguém, eu me deixei acreditar.
Sem perceber, minha mão tocou seu rosto. Um gesto leve, quase inconsciente. A ponta dos meus dedos passou por sua bochecha, desenhando o mapa delicado das sardas. E então ele simplesmente parou.
Parou de sorrir. Parou de se mover. Só me olhou.
E me beijou.
Foi um beijo lento, sem pressa. Um beijo bonito. Do tipo que não pede permissão porque sabe que foi convidado desde o primeiro olhar. Um beijo que parecia ter ensaiado a vida inteira por esse exato momento.
Ele era bom nisso.
Bom demais.
Me puxou mais perto com uma das mãos em minha cintura, a outra ainda segurando a minha, como se aquele fosse um passo de dança. Meu coração disparou, mas meu corpo ficou leve — como se por um segundo, tudo fizesse sentido.
Ali, no jardim escondido de um palácio real, com um príncipe me beijando sob lanternas antigas, eu me senti exatamente onde deveria estar.
E talvez fosse isso o mais perigoso.
Eu, Emily e estávamos jogados na mesa do canto, com cappuccinos e biscoitos que a gente nunca terminava. Emily me encarava com aquele olhar de “fala logo o que tá acontecendo” enquanto batucava com a colher no copo, impaciente.
— Então? — Emily ergueu uma sobrancelha. — Vai ficar me enrolando ou vai contar o que aconteceu naquele jantar real?
Suspirei.
— Ele é... diferente, Em. Não do tipo “sou especial”, mas do tipo que sabe que tá num lugar onde todo mundo finge. E mesmo assim, tenta ser ele. Ou pelo menos, parece tentar.
parou o batucar. O som metálico ficou no ar, suspenso. Emily soltou uma risadinha seca.
— “Parece”. Boa escolha de palavra.
— Tá sendo muito cética. Eu gostei dele. — confessei, sentindo o olhar de queimar na lateral do meu rosto. — De verdade.
Emily riu de novo, mas agora sem humor nenhum.
— Eu sei. E é por isso que eu tô preocupada.
Dei um gole no café. Queimou a língua. Perfeito.
— Sabe, às vezes eu penso em levar essa coisa da música a sério. Cantar de verdade. Compor mais. Me mostrar como eu sou. — As palavras saíram num quase sussurro. — Talvez... fazer disso minha carreira.
Emily me olhou como se estivesse esperando ouvir aquilo há anos.
— Sim, . Finalmente. Você é talentosa demais pra ficar só postando cover no Instagram e cantando em festa de aniversário de sobrinha do diretor.
— Mas aí vem essa história do . Da rainha. Desse mundo que parece um reality show com regras do século passado.
Ela se encostou na cadeira, cruzando os braços.
— Então me responde uma coisa: você quer ser cantora... ou princesa? Porque os dois não dá.
Fiquei em silêncio. Não porque eu não sabia a resposta. Mas porque ela doía mais do que eu esperava.
— Não é tão preto no branco assim... — murmurei.
— Claro que é. — Emily baixou o tom, firme. — , eu estudei com o .
Levantei os olhos na mesma hora. também.
— O quê?
Ela deu de ombros, desconfortável.
— Meus pais trabalharam em Londres por uns anos, lembra? Me colocaram no colégio St. Andrew. estudava lá. Eu vi quem ele era quando ninguém importante tava olhando.
— As pessoas mudam, Em. — falei, meio na defensiva.
— Mudam. Mas não em três meses. E não quando têm fama, bajulação e liberdade ilimitada. Ele era... cruel. Manipulador. Tinha um jeito de brincar com as pessoas que parecia carinhoso, mas era controle. Com as garotas então... nem se fala.
— Que garotas? — perguntei, a voz mais fina do que eu queria
Emily respirou fundo.
— Uma delas era minha colega de quarto. Ele brincava, flertava, sumia... depois voltava como se nada tivesse acontecido. E elas aceitavam, porque era o príncipe. Mas ele era frio. Sem empatia.
Fiquei quieta. Uma parte de mim queria levantar e sair. Outra queria acreditar que aquilo tudo era exagero.
— Eu não sou elas. — falei por fim.
Emily me encarou com uma expressão que misturava dor e ternura.
— Eu sei. Mas ele também sabe. E é isso que me assusta.
, que tinha ficado calado até então, largou a colher na mesa com força.
— Exato. — murmurou, sem me olhar. — Você não é como elas. E ele vai adorar isso.
— Eu sou forte. — insisti, tentando segurar minha voz firme. — Se no mínimo sinal ele for esse cara que você tá dizendo... eu caio fora. Sem drama.
Emily suspirou.
— Eu confio em você. Só não confio nele.
— Então relaxa. — Forcei um sorriso. — Eu prometo que não vou deixar ninguém apagar quem eu sou. Nem por amor. Nem por coroa.
Emily retribuiu o sorriso, meio triste.
— Tomara que você não precise provar isso do jeito mais difícil.
Do meu lado, não sorriu. Ele só encarava o café frio, como se já soubesse que promessa nenhuma ia me salvar.
Fazia semanas que nos víamos em silêncio. Não no sentido literal — mas no tipo de silêncio que a imprensa, a realeza e até meu pai fingiam não ver. Passeios escondidos pelos corredores do palácio, conversas sussurradas durante jantares formais, toques rápidos em meio a multidões importantes. sabia como fazer tudo parecer casual... e ainda assim, único.
Naquela noite, tudo estava mais intenso. O salão estava lotado, cheio de convidados ilustres, discursos longos e taças tilintando no fundo. Eu usava um vestido alugado e um sorriso emprestado, tentando manter a postura de “filha do ator favorito da rainha”. Mas meus olhos o procuravam. Sempre.
Ele apareceu do nada, como sempre fazia. Um sussurro atrás do meu ombro.
— Quer fugir?
Me virei. Ele vestia um blazer claro, desabotoado, com aquele ar de desleixo charmoso que só ele conseguia carregar sem parecer infantil.
— Agora? — perguntei, em um tom que era mais riso do que dúvida.
— Agora. — disse, estendendo a mão como se eu tivesse escolha.
Peguei.
Passamos por duas portas laterais, atravessamos uma ala vazia do palácio e saímos por uma porta lateral. Ele conhecia todos os caminhos secretos. Me levou até um jardim interno, fechado por cercas vivas e iluminado apenas por algumas lanternas pequenas espalhadas no chão de pedra.
Era silencioso. Puro. Um lugar que parecia dele — mas, por algum motivo, ele quis dividir comigo.
— Esse é o jardim de ninguém. — disse ele, como se lesse meus pensamentos. — Todo mundo acha que pertence ao rei anterior. Mas nunca foi declarado oficial. Nem os guias turísticos conhecem. Só quem vive aqui.
— E você vive aqui? — perguntei. Eu não sabia direito onde cada ramo da família real morava, quais eram os critérios, como funcionava esse jogo de castelos.
— Cresci aqui. Viver... é outra coisa.
Ficamos em silêncio por um momento. A noite estava fria, mas agradável. As flores exalavam um cheiro leve, quase tímido.
Ele se virou pra mim, com aquele sorriso que não era de príncipe — era só de garoto.
— Você é diferente de tudo isso. De todo mundo. Eu nunca... — ele hesitou, buscando as palavras. — Nunca conheci alguém que fizesse parecer que eu podia respirar.
Meu coração tropeçou.
— Você sabe o que dizer. — retruquei, quase sorrindo.
— Você é tão linda. Me faz querer te conhecer muito mais.
— Você pode conhecer.
Por um segundo, tudo parou. O ar, o tempo, até as lanternas pareciam respirar mais devagar. Ele deu um passo à frente.
— Posso? — perguntou, estendendo a mão de novo. Só que dessa vez, não era pra fugir.
— Isso aqui é um baile agora?
— Só pra dois.
Coloquei minha mão na dele, rindo. Ele me puxou devagar. Começamos a dançar no ritmo de uma música que não existia. Meus pés tropeçavam um pouco — não por falta de jeito, mas pelo coração acelerado.
— Você dança mal. — provoquei.
— Eu danço como alguém que não se importa com nada além de você estar aqui.
Eu poderia dizer que não fui conquistada por essa frase. Poderia fingir que resisti, que mantive minha pose. Mas estaria mentindo. Eu senti meu peito se abrir, como se algo estivesse desarmando dentro de mim.
Naquela noite, eu me permiti acreditar que talvez... fosse possível confiar nele.
Porque tudo parecia bonito demais para ser mentira.
E então, eu perguntei. Não como quem desconfia, mas como quem quer entender.
— Por que sua avó quer tanto que você namore?
Ele olhou pra mim por alguns segundos. Não como quem não sabe a resposta, mas como quem se pergunta se deve dizer a verdade.
— Porque você apareceu. E ela te achou... encantadora. — disse com sinceridade, sem ironia. — E também porque, nesse mundo, tudo precisa parecer sob controle o tempo inteiro. Até a nossa vida afetiva. E eu... bom, tenho um histórico de fugir desse controle. De dar trabalho.
— Então isso é um plano de contenção?
— Mais ou menos. Aqui, ninguém manda diretamente. Mandam com sorrisos, conselhos, “cuidados”. É uma dança. Ninguém te prende, mas também não te deixam escapar de verdade.
— E você dança?
— Às vezes. Mas às vezes... — ele me puxou um pouco mais perto — ...eu fujo pro jardim de ninguém.
Mesmo sem música, sem plateia, sem aprovação de ninguém… foi o momento mais real que eu já tinha vivido com ele.
era alto, mesmo sendo jovem. Não sei até que altura os garotos crescem, mas ele já parecia ter crescido o suficiente pra sempre parecer dois passos à frente. E bonito… ele era muito bonito. As sardas espalhadas pelo rosto davam a ele um ar despreocupado, quase de verão. Aquelas sardas eram o tipo de detalhe que fazia alguém parecer mais humano — ou mais irresistível.
E ele sabia disso. Ou, pelo menos, agia como se não soubesse — o que, sinceramente, era ainda mais perigoso.
Além disso, era atlético. Obviamente. Ele praticava todos os esportes possíveis. Corria, nadava, jogava polo, esgrima, rugby... e qualquer outra coisa que envolvesse uniforme e aplausos. Esse era outro motivo pelo qual chamava atenção por onde passava. Eu via — em encontros, eventos, jantares — como os olhos se voltavam para ele. Especialmente os das garotas.
Toda garota queria namorar um príncipe. Era o tipo de coisa que parecia saído de um conto de fadas, mesmo quando você sabia que o final feliz podia ter cláusulas.
Mas comigo... era diferente. Pelo menos, eu queria acreditar que era. Ele me olhava como se eu não fosse só mais uma. Como se o mundo ficasse mais silencioso quando eu entrava na sala. E, naquela noite, no jardim de ninguém, eu me deixei acreditar.
Sem perceber, minha mão tocou seu rosto. Um gesto leve, quase inconsciente. A ponta dos meus dedos passou por sua bochecha, desenhando o mapa delicado das sardas. E então ele simplesmente parou.
Parou de sorrir. Parou de se mover. Só me olhou.
E me beijou.
Foi um beijo lento, sem pressa. Um beijo bonito. Do tipo que não pede permissão porque sabe que foi convidado desde o primeiro olhar. Um beijo que parecia ter ensaiado a vida inteira por esse exato momento.
Ele era bom nisso.
Bom demais.
Me puxou mais perto com uma das mãos em minha cintura, a outra ainda segurando a minha, como se aquele fosse um passo de dança. Meu coração disparou, mas meu corpo ficou leve — como se por um segundo, tudo fizesse sentido.
Ali, no jardim escondido de um palácio real, com um príncipe me beijando sob lanternas antigas, eu me senti exatamente onde deveria estar.
E talvez fosse isso o mais perigoso.
Capítulo 02
— EU BEIJEI ELE.
Foi a primeira coisa que eu disse quando entrei no quarto de Emily, sem bater, sem respirar, sem filtro. Só joguei a bolsa no chão e me joguei na cama dela como se o mundo tivesse acabado. Ou começado. Difícil dizer.
Ela arregalou os olhos e largou o livro no colo.
— O quê? Espera. O quê?? VOCÊ beijou ?
— Tá, tecnicamente ele me beijou. Mas eu deixei! Eu quis! E FOI BOM, EMILY. Tão bom que eu tô com medo de nunca mais beijar outro ser humano e sentir isso de novo. Eu tô ferrada!
Emily deu um gritinho agudo, do tipo que só melhor amiga sabe dar. Pulou da cadeira e se jogou do meu lado, quase me esmagando.
— AAAHHHH MEU DEUS EU SABIAAAA! EU SABIA QUE ISSO IA ACONTECER! COMO FOI? COMO FOI O MOMENTO? TINHA LUZES? TINHA MÚSICA? VOCÊ TROPEÇOU? VOCÊ MURROU ELE DEPOIS? ME CONTA TUDO!
Eu gargalhei, cobrindo o rosto com as mãos.
— Emily… foi num jardim secreto dentro do palácio. Tinha lanternas no chão. Eu nem sei de onde saiu aquilo. Parecia uma cena de filme! Ele me chamou pra fugir, a gente dançou... sem música, tipo idiotas... e aí eu toquei o rosto dele sem pensar e PUF… aconteceu.
— Meu Deus. Vocês dançaram num jardim secreto? Quem é você, ? A versão britânica da Cinderela rebelde?
— Eu tô surtando. O beijo foi tão bom que eu me senti flutuando. Tipo… juro que senti as lanternas piscarem mais devagar. Isso é normal?
— Não. Isso é química. Isso é injusto. Isso é fanfic demais pra minha vida. — Emily bateu com o travesseiro na própria cabeça. — Você beijou um príncipe bonito, atlético, ruivo com sardas, em um JARDIM REAL. Amiga, você venceu.
— Ainda tô processando. Tipo... e se eu me apaixonei mesmo?
Ela me olhou, abrindo um sorriso genuíno.
— Tá tudo bem se apaixonar, . Você é humana. E, pelo visto, ele também sabe ser. Por enquanto.
— Por enquanto. — repeti, caindo de costas na cama.
— Mas olha só, sem pressa. Sem conto de fadas. Se for bom, que seja real. Se der errado… a gente escreve uma música foda e ainda sai por cima.
— Tá bom. Mas só por garantia… me lembra que eu sou forte, tá? Que eu não sou o tipo de garota que esquece quem é por causa de um beijo incrível de um príncipe em um jardim iluminado por lanternas.
— Claro. Mas também me lembra que você merece beijo incrível em jardim iluminado por lanternas. Porque, convenhamos, você é foda.
Sorri. Com ela do meu lado, até o caos parecia controlável.
Flashback on
5 anos atrás…
O sol da tarde dourava o pátio da escola como se o mundo fosse um daqueles filmes adolescentes que os dois fingiam odiar. estava sentada no degrau mais alto da arquibancada, com as pernas cruzadas e um pacote de bolacha recheada aberto no colo. jogou a mochila no chão e se jogou ao lado dela com um suspiro dramático.
— Eu vou tentar. — disse, como quem estava prestes a declarar algo muito sério.
— Tentar o quê? — ela perguntou com a boca cheia, oferecendo uma bolacha sem nem olhar pra ele.
— Entrar pro time de basquete.
Ela se virou tão rápido que quase derrubou o pacote inteiro.
— Você tá falando sério?
— Tô. — ele riu do jeito como ela arregalava os olhos. — Treinei com meu irmão ontem. E tipo... eu sou péssimo, mas não tanto quanto achei que seria.
— , você é péssimo em matemática, não em basquete. — Ela encostou o ombro no dele, rindo. — E mesmo se for péssimo, você vai melhorar. É só não desistir.
Ele a olhou de lado, com aquele sorriso torto que ela já conhecia de cor. Era o sorriso de quem ainda não acreditava em si mesmo, mas acreditava nela acreditando.
— Você acha que eu tenho chance?
— Eu acho que se depender de mim, você já tá no time titular. — respondeu, convencida. — E quando você passar na peneira, eu juro que venho com uniforme de torcida só pra te apoiar. Não pro time, . Por você.
Ele riu alto, jogando a cabeça pra trás, e depois olhou pra ela com um brilho nos olhos que não precisava de legenda.
— Vai vir com pompom e tudo?
— Óbvio! Vou gritar mais alto que o técnico. “Vai, , quebra a tabela se for preciso!” — ela fez pose de animadora, levantando os braços no ar.
— Meu Deus, você vai me matar de vergonha. — ele cobriu o rosto com as mãos, mas não conseguia parar de rir.
— Vai ser icônico, aceita.
Eles ficaram em silêncio por um instante, observando as nuvens acima do pátio, as árvores se balançando preguiçosas, os sons distantes de uma bola quicando e vozes de outros colegas. Era um momento pequeno, mas cheio de tudo que importava. Segurança. Afeto. Um tipo de amor que ainda não tinha nome, mas já morava neles.
— A gente combina, né? — ele disse de repente, baixinho.
— Como o quê? — ela virou o rosto para ele, curiosa.
— Tipo... manteiga de amendoim e geleia. — ele deu de ombros. — Diferentes, mas quando se juntam, viram o melhor lanche do mundo.
Ela sorriu, o coração tropeçando dentro do peito. E respondeu:
— É. Eu acho que a gente é isso mesmo.
E naquele fim de tarde, com as promessas pequenas e os sonhos grandes, acreditava de verdade que eles iam durar pra sempre.
Flashback off
O piano elétrico chiava um pouco nas notas mais baixas, mas eu gostava daquele som imperfeito. Soava mais verdadeiro do que qualquer coisa ensaiada demais. Meus dedos deslizavam pelas teclas, tentando encontrar um refrão que ainda não existia, quando ouvi o ranger da porta.
— Você sempre foge pra cá? — A voz de , meio rouca de tanto cantar, me fez sorrir sem querer.
Olhei por cima do ombro. Ele estava ali, encostado no batente, a guitarra pendurada de lado. A camiseta preta já estava gasta, o cabelo caindo em mechas bagunçadas sobre o rosto. O piercing no lábio inferior brilhava sob a luz fraca, e eu percebi, de repente, o quanto ele era bonito. Não de um jeito óbvio, mas de um jeito que doía de olhar. Eu nunca tinha deixado esse pensamento chegar tão longe — até agora.
— Não é fuga — respondi, tentando me concentrar no piano. — É só… o único lugar que eu consigo ouvir minha própria cabeça.
Ele entrou, largando a guitarra num canto, e veio se sentar ao meu lado. O banco era pequeno, e a proximidade me deixou consciente de cada centímetro de pele. não pediu, só começou a acompanhar minhas notas, improvisando. O som dele preenchia as lacunas do meu, como se sempre tivesse estado ali.
— Você devia acreditar mais em você — disse depois de um tempo, olhando para as teclas. — Quando canta baixo, parece que tem medo de quebrar alguma coisa.
— Talvez eu tenha. — sorri, nervosa.
Ele riu, baixinho. — Se quebrar, a gente junta depois.
Meu peito apertou. dizia essas coisas como quem não dava importância, mas cada palavra me atingia fundo. Eu olhei pra ele, e por um instante esqueci de tocar. As tatuagens ainda eram poucas, rabiscos que subiam discretos pelo braço, mas o jeito como ele segurava o corpo, como se o mundo inteiro fosse pequeno demais pra ele, já deixava claro quem ele seria.
— Por que você sempre… faz parecer tão simples? — perguntei.
Ele finalmente me olhou, e não havia sorriso, só seriedade. — Porque às vezes é. Você só não enxerga.
Houve um silêncio carregado, como se a música tivesse se guardado para não atrapalhar. Ele abriu a boca, hesitou, fechou de novo. Quando falou, a voz saiu mais baixa:
— Se eu disser o que tô pensando agora… acho que não dá pra voltar atrás.
O coração batia alto demais. — Então não diz.
Ele riu, nervoso, mordendo o piercing como sempre fazia quando estava prestes a falar demais. — É. Melhor não.
Quando saiu, ficou um vazio estranho no quarto. O banco ainda guardava o calor dele ao meu lado, e minhas mãos tremiam em cima das teclas, incapazes de voltar a tocar.
Eu fiquei parada ali, ouvindo o eco da nossa música inacabada. E era isso que me doía: tudo entre nós parecia inacabado. Sempre um quase, sempre um silêncio no lugar da frase certa.
Fechei os olhos e a imagem dele continuava — a forma como o cabelo caía no rosto, como a luz se prendia no piercing do lábio, como os olhos escuros pareciam querer me atravessar. Era ridículo perceber só agora o quanto era bonito. Não do jeito que todo mundo comentava pelos corredores, mas de um jeito secreto, como se fosse só meu e eu tivesse guardado por acidente.
Mordi o lábio, sentindo aquela mistura de raiva e desejo. Por que eu queria tanto que ele tivesse falado? Talvez porque eu soubesse, lá no fundo, o que viria depois daquelas palavras. Talvez porque eu mesma estivesse pronta para ouvir.
E ao mesmo tempo, odiava cada parte de mim por desejar isso. era meu amigo. O garoto que me ajudava nos ensaios, que ria das minhas letras melosas, que ficava horas explicando riffs que eu nunca conseguiria reproduzir direito. Eu não devia sentir esse nó no estômago quando ele chegava perto demais. Não devia implorar em silêncio para ele atravessar a linha que nós mesmos traçamos.
Mas eu queria. Queria mais do que qualquer música que eu pudesse compor.
Então fiz o que sempre fazia: abaixei a cabeça, respirei fundo e fingi que não havia nada ali além de notas presas no piano.
Foi a primeira coisa que eu disse quando entrei no quarto de Emily, sem bater, sem respirar, sem filtro. Só joguei a bolsa no chão e me joguei na cama dela como se o mundo tivesse acabado. Ou começado. Difícil dizer.
Ela arregalou os olhos e largou o livro no colo.
— O quê? Espera. O quê?? VOCÊ beijou ?
— Tá, tecnicamente ele me beijou. Mas eu deixei! Eu quis! E FOI BOM, EMILY. Tão bom que eu tô com medo de nunca mais beijar outro ser humano e sentir isso de novo. Eu tô ferrada!
Emily deu um gritinho agudo, do tipo que só melhor amiga sabe dar. Pulou da cadeira e se jogou do meu lado, quase me esmagando.
— AAAHHHH MEU DEUS EU SABIAAAA! EU SABIA QUE ISSO IA ACONTECER! COMO FOI? COMO FOI O MOMENTO? TINHA LUZES? TINHA MÚSICA? VOCÊ TROPEÇOU? VOCÊ MURROU ELE DEPOIS? ME CONTA TUDO!
Eu gargalhei, cobrindo o rosto com as mãos.
— Emily… foi num jardim secreto dentro do palácio. Tinha lanternas no chão. Eu nem sei de onde saiu aquilo. Parecia uma cena de filme! Ele me chamou pra fugir, a gente dançou... sem música, tipo idiotas... e aí eu toquei o rosto dele sem pensar e PUF… aconteceu.
— Meu Deus. Vocês dançaram num jardim secreto? Quem é você, ? A versão britânica da Cinderela rebelde?
— Eu tô surtando. O beijo foi tão bom que eu me senti flutuando. Tipo… juro que senti as lanternas piscarem mais devagar. Isso é normal?
— Não. Isso é química. Isso é injusto. Isso é fanfic demais pra minha vida. — Emily bateu com o travesseiro na própria cabeça. — Você beijou um príncipe bonito, atlético, ruivo com sardas, em um JARDIM REAL. Amiga, você venceu.
— Ainda tô processando. Tipo... e se eu me apaixonei mesmo?
Ela me olhou, abrindo um sorriso genuíno.
— Tá tudo bem se apaixonar, . Você é humana. E, pelo visto, ele também sabe ser. Por enquanto.
— Por enquanto. — repeti, caindo de costas na cama.
— Mas olha só, sem pressa. Sem conto de fadas. Se for bom, que seja real. Se der errado… a gente escreve uma música foda e ainda sai por cima.
— Tá bom. Mas só por garantia… me lembra que eu sou forte, tá? Que eu não sou o tipo de garota que esquece quem é por causa de um beijo incrível de um príncipe em um jardim iluminado por lanternas.
— Claro. Mas também me lembra que você merece beijo incrível em jardim iluminado por lanternas. Porque, convenhamos, você é foda.
Sorri. Com ela do meu lado, até o caos parecia controlável.
Flashback on
5 anos atrás…
O sol da tarde dourava o pátio da escola como se o mundo fosse um daqueles filmes adolescentes que os dois fingiam odiar. estava sentada no degrau mais alto da arquibancada, com as pernas cruzadas e um pacote de bolacha recheada aberto no colo. jogou a mochila no chão e se jogou ao lado dela com um suspiro dramático.
— Eu vou tentar. — disse, como quem estava prestes a declarar algo muito sério.
— Tentar o quê? — ela perguntou com a boca cheia, oferecendo uma bolacha sem nem olhar pra ele.
— Entrar pro time de basquete.
Ela se virou tão rápido que quase derrubou o pacote inteiro.
— Você tá falando sério?
— Tô. — ele riu do jeito como ela arregalava os olhos. — Treinei com meu irmão ontem. E tipo... eu sou péssimo, mas não tanto quanto achei que seria.
— , você é péssimo em matemática, não em basquete. — Ela encostou o ombro no dele, rindo. — E mesmo se for péssimo, você vai melhorar. É só não desistir.
Ele a olhou de lado, com aquele sorriso torto que ela já conhecia de cor. Era o sorriso de quem ainda não acreditava em si mesmo, mas acreditava nela acreditando.
— Você acha que eu tenho chance?
— Eu acho que se depender de mim, você já tá no time titular. — respondeu, convencida. — E quando você passar na peneira, eu juro que venho com uniforme de torcida só pra te apoiar. Não pro time, . Por você.
Ele riu alto, jogando a cabeça pra trás, e depois olhou pra ela com um brilho nos olhos que não precisava de legenda.
— Vai vir com pompom e tudo?
— Óbvio! Vou gritar mais alto que o técnico. “Vai, , quebra a tabela se for preciso!” — ela fez pose de animadora, levantando os braços no ar.
— Meu Deus, você vai me matar de vergonha. — ele cobriu o rosto com as mãos, mas não conseguia parar de rir.
— Vai ser icônico, aceita.
Eles ficaram em silêncio por um instante, observando as nuvens acima do pátio, as árvores se balançando preguiçosas, os sons distantes de uma bola quicando e vozes de outros colegas. Era um momento pequeno, mas cheio de tudo que importava. Segurança. Afeto. Um tipo de amor que ainda não tinha nome, mas já morava neles.
— A gente combina, né? — ele disse de repente, baixinho.
— Como o quê? — ela virou o rosto para ele, curiosa.
— Tipo... manteiga de amendoim e geleia. — ele deu de ombros. — Diferentes, mas quando se juntam, viram o melhor lanche do mundo.
Ela sorriu, o coração tropeçando dentro do peito. E respondeu:
— É. Eu acho que a gente é isso mesmo.
E naquele fim de tarde, com as promessas pequenas e os sonhos grandes, acreditava de verdade que eles iam durar pra sempre.
Flashback off
O piano elétrico chiava um pouco nas notas mais baixas, mas eu gostava daquele som imperfeito. Soava mais verdadeiro do que qualquer coisa ensaiada demais. Meus dedos deslizavam pelas teclas, tentando encontrar um refrão que ainda não existia, quando ouvi o ranger da porta.
— Você sempre foge pra cá? — A voz de , meio rouca de tanto cantar, me fez sorrir sem querer.
Olhei por cima do ombro. Ele estava ali, encostado no batente, a guitarra pendurada de lado. A camiseta preta já estava gasta, o cabelo caindo em mechas bagunçadas sobre o rosto. O piercing no lábio inferior brilhava sob a luz fraca, e eu percebi, de repente, o quanto ele era bonito. Não de um jeito óbvio, mas de um jeito que doía de olhar. Eu nunca tinha deixado esse pensamento chegar tão longe — até agora.
— Não é fuga — respondi, tentando me concentrar no piano. — É só… o único lugar que eu consigo ouvir minha própria cabeça.
Ele entrou, largando a guitarra num canto, e veio se sentar ao meu lado. O banco era pequeno, e a proximidade me deixou consciente de cada centímetro de pele. não pediu, só começou a acompanhar minhas notas, improvisando. O som dele preenchia as lacunas do meu, como se sempre tivesse estado ali.
— Você devia acreditar mais em você — disse depois de um tempo, olhando para as teclas. — Quando canta baixo, parece que tem medo de quebrar alguma coisa.
— Talvez eu tenha. — sorri, nervosa.
Ele riu, baixinho. — Se quebrar, a gente junta depois.
Meu peito apertou. dizia essas coisas como quem não dava importância, mas cada palavra me atingia fundo. Eu olhei pra ele, e por um instante esqueci de tocar. As tatuagens ainda eram poucas, rabiscos que subiam discretos pelo braço, mas o jeito como ele segurava o corpo, como se o mundo inteiro fosse pequeno demais pra ele, já deixava claro quem ele seria.
— Por que você sempre… faz parecer tão simples? — perguntei.
Ele finalmente me olhou, e não havia sorriso, só seriedade. — Porque às vezes é. Você só não enxerga.
Houve um silêncio carregado, como se a música tivesse se guardado para não atrapalhar. Ele abriu a boca, hesitou, fechou de novo. Quando falou, a voz saiu mais baixa:
— Se eu disser o que tô pensando agora… acho que não dá pra voltar atrás.
O coração batia alto demais. — Então não diz.
Ele riu, nervoso, mordendo o piercing como sempre fazia quando estava prestes a falar demais. — É. Melhor não.
Quando saiu, ficou um vazio estranho no quarto. O banco ainda guardava o calor dele ao meu lado, e minhas mãos tremiam em cima das teclas, incapazes de voltar a tocar.
Eu fiquei parada ali, ouvindo o eco da nossa música inacabada. E era isso que me doía: tudo entre nós parecia inacabado. Sempre um quase, sempre um silêncio no lugar da frase certa.
Fechei os olhos e a imagem dele continuava — a forma como o cabelo caía no rosto, como a luz se prendia no piercing do lábio, como os olhos escuros pareciam querer me atravessar. Era ridículo perceber só agora o quanto era bonito. Não do jeito que todo mundo comentava pelos corredores, mas de um jeito secreto, como se fosse só meu e eu tivesse guardado por acidente.
Mordi o lábio, sentindo aquela mistura de raiva e desejo. Por que eu queria tanto que ele tivesse falado? Talvez porque eu soubesse, lá no fundo, o que viria depois daquelas palavras. Talvez porque eu mesma estivesse pronta para ouvir.
E ao mesmo tempo, odiava cada parte de mim por desejar isso. era meu amigo. O garoto que me ajudava nos ensaios, que ria das minhas letras melosas, que ficava horas explicando riffs que eu nunca conseguiria reproduzir direito. Eu não devia sentir esse nó no estômago quando ele chegava perto demais. Não devia implorar em silêncio para ele atravessar a linha que nós mesmos traçamos.
Mas eu queria. Queria mais do que qualquer música que eu pudesse compor.
Então fiz o que sempre fazia: abaixei a cabeça, respirei fundo e fingi que não havia nada ali além de notas presas no piano.
Capítulo 03
Narrado por
Eu sempre achei engraçado como as pessoas falam “é só uma festa” quando estão prestes a me colocar no meio de um evento em que cada detalhe — do tom da minha maquiagem ao comprimento da minha saia — já foi decidido antes mesmo de eu chegar.
Dessa vez, não.
Essa era a minha noite também.
Fechei a porta do quarto de hotel, sentei diante do espelho e espalhei meus pincéis e paletas na penteadeira. Nada de maquiadores reais, nada de “tons discretos que a rainha aprova”. Escolhi o batom que eu usava desde os treze, o delineado que eu mesma aprendi a fazer torto até acertar, e o iluminador que parecia sol no meu rosto.
O vestido… ah, o vestido. Azul escuro, simples, mas com um corte que me deixava confortável e segura. Eu não queria parecer uma peça de vitrine. Queria parecer… eu. Perfume? O meu. Não aquele que a assistente da rainha tinha “gentilmente sugerido” no último evento.
Emily bateu na porta e entrou sem esperar resposta.
— Meu Deus, … — ela colocou a mão na boca, dramática. — Você vai acabar com ele hoje.
— Com ele quem? — provoquei, fingindo não entender.
— O aniversariante, óbvio. — ela riu e se sentou na cama. — Você tá… você mesma. É diferente.
— É a ideia. — sorri, ajeitando o vestido.
Quando desci do carro, o palácio parecia ainda maior do que nas outras vezes. As luzes douradas refletiam nas janelas, o som distante de risos e passos ecoava no mármore. Guardas parados como estátuas, tapete impecável, e convidados desfilando como se estivessem em um filme de época.
Cada vestido brilhava como se cada mulher ali estivesse competindo por uma coroa invisível. E talvez estivessem. Os olhares se viraram para mim. Alguns curiosos, outros… avaliadores. Cumprimentei quem precisava, sorrindo no tom certo — aquele sorriso que não mostra todos os dentes e não dura mais que três segundos.
não estava à vista, o que me deixou com uma pontinha de ansiedade. Fiquei perto de uma das janelas, observando o movimento, tentando absorver cada detalhe sem parecer deslocada.
“E agora, para o aniversariante…”
Meu nome foi chamado.
O salão diminuiu o barulho, como se alguém tivesse abaixado o volume geral. Respirei fundo, sentindo aquele frio no estômago — não o medo de errar, mas aquela descarga elétrica de saber que algo importante está para acontecer.
Subi no pequeno palco improvisado. O microfone estava frio na minha mão. Olhei para o público e, antes que pudessem imaginar um show grandioso, comecei.
A música era calma, suave, com acordes que pareciam respirar. Não escolhi para impressionar. Escolhi para me mostrar. E, no meio da primeira estrofe, encontrei os olhos dele.
estava ali, parado, olhando como se o resto do salão tivesse evaporado. Eu continuei cantando, mas cada palavra parecia ir direto para ele.
Quando terminei, houve um segundo de silêncio, seguido por aplausos que encheram o salão. Alguns eram educados, formais; outros pareciam sinceros. A rainha sorriu — um sorriso pequeno, calculado, mas ainda assim um sorriso.
E então começou a atravessar o salão. Não apressado, mas decidido. Pessoas tentaram parar para cumprimentá-lo, mas ele continuou, desviando com a elegância de quem já nasceu sabendo ser centro das atenções.
— Isso foi… inacreditável. — disse, segurando minha mão como se fosse parte da música. — Você acabou de roubar a cena no meu aniversário. E olha que eu sou o aniversariante. — Não era minha intenção. — minha voz ainda tinha o resquício da música.
— Eu sei. É isso que te faz ser assim… — ele deu um passo à frente, aproximando-se mais — …diferente.
Alguém o chamou pelo nome. Ele não olhou.
— Se eu pudesse escolher qualquer presente hoje, seria exatamente isso. Você. Aqui.
Não sei se foi ele que me puxou ou se fui eu que dei o passo, mas de repente estávamos dançando, ali mesmo, ao lado do palco. Sem música, sem protocolo.
Algumas pessoas olhavam. Outras fingiam não ver.
— Está todo mundo olhando. — sussurrei.
— Deixa. — ele respondeu, o olhar preso no meu. — Hoje é meu aniversário. Posso fazer o que eu quiser.
E, pela primeira vez, não me senti uma peça que alguém encaixou num jogo de xadrez. Não me senti “a filha do ator favorito da rainha”. Naquele momento, dançando com ele no meio de toda aquela pompa, eu só me senti… eu.
E, por mais que eu não soubesse explicar, parecia que eu pertencia àquele instante.
Eu não queria parar de sorrir.
Talvez fosse o efeito da música, talvez o fato de todos terem me olhado sem que eu me sentisse uma fraude… ou talvez fosse só ele.
Ainda dançávamos devagar, no canto, enquanto o resto do salão retomava a festa. O vestido roçava levemente nas minhas pernas, e o calor da mão dele na minha cintura parecia queimar.
— Você percebeu? — perguntei, ofegante. — Eu não errei uma nota.
— Eu percebi. — ele sorriu, inclinando o rosto para perto. — Mas mesmo que tivesse errado, ninguém ia lembrar. Você tinha todo mundo na palma da mão.
Meu coração batia tão rápido que eu quase ri.
— Eu tinha medo de me sentir… fora do lugar. Mas agora… — respirei fundo — …parece que tudo fez sentido.
— Não é só você que sente isso. — ele disse, sério, como se confessasse algo que não podia sair dali. — Eu não queria que a noite acabasse.
A música do salão ficou mais alta, e alguém passou chamando pelo nome dele. Ele ignorou.
— Vem comigo.
Não perguntei pra onde. Peguei na mão dele e seguimos por um dos corredores laterais, longe das luzes principais. A cada passo, a adrenalina aumentava. Era como fugir de algo, mas sem saber exatamente o quê.
Entramos em um quarto — não sei se era dele, não sei se era de hóspedes. Tudo parecia maior, mais silencioso e… diferente. fechou a porta devagar, encostando-se nela.
— Você está linda. — ele disse, sem hesitar. — E não é só hoje. Você é linda quando acorda, quando canta, quando briga comigo.
Eu ri. — Você nunca me viu acordando.
— Então me deixa ver. — ele sorriu de um jeito que não era só charme, era quase um pedido.
Fiquei em silêncio por um segundo. O coração martelava no peito. Ele se aproximou e, dessa vez, não pediu permissão. O beijo foi lento, profundo, como se ele quisesse memorizar cada segundo. Eu me perdi ali, no gosto, no cheiro, na forma como o mundo pareceu fechar a porta junto com ele.
O resto da noite… bom, digamos que eu não voltei para o hotel.
A primeira coisa que senti foi o silêncio. Não aquele silêncio gelado de eventos formais, mas um silêncio quente, que envolvia, como se até o ar tivesse decidido dormir um pouco mais.
A segunda coisa foi o peso leve de um braço sobre minha cintura.
Abri os olhos devagar. A luz do amanhecer filtrava pelas cortinas pesadas do quarto, criando faixas douradas na parede. Por um segundo, precisei me lembrar de onde estava. Então olhei para o lado.
dormia.
O cabelo, sempre perfeitamente arrumado em público, caía de um jeito bagunçado e natural sobre a testa. O rosto parecia mais suave sem o peso do sorriso calculado ou da postura de príncipe. As sardas ficavam mais visíveis, espalhadas como um segredo que só podia ser visto de perto.
Ele respirava fundo, num ritmo constante, com os lábios entreabertos. Por um instante, parecia mais novo… ou talvez fosse só porque estava, pela primeira vez, completamente despreocupado.
Observei cada detalhe, como se quisesse gravar na memória. O formato do nariz, a curva do maxilar, o jeito que a mão dele relaxava, ainda próxima de mim, como se inconscientemente quisesse garantir que eu não fosse embora.
Não sei quanto tempo fiquei assim. Podia ouvir meu próprio coração, mas não queria que ele acordasse. Porque naquele momento, olhando para ele, parecia que tudo era possível.
E, por mais que eu soubesse que o mundo lá fora estava cheio de regras, títulos e expectativas… aqui dentro, entre quatro paredes, ele era só .
E eu… só eu.
Eu já estava com o celular na mão antes mesmo de chegar no café. Emily me mandara um “precisamos conversar URGENTE” antes das oito da manhã, o que só podia significar uma coisa: ela sabia que algo tinha acontecido.
Quando entrei, ela já estava na nossa mesa de sempre, tomando café como se fosse água e me olhando com aquele sorriso de quem não ia ter piedade.
— Então…? — ela começou, antes mesmo que eu sentasse. — Não me venha com “não aconteceu nada”, porque você sumiu ontem à noite e não voltou pro hotel.
Tentei manter a compostura, mas minha boca traiu minha intenção e abriu um sorriso enorme.
— Emily…
— Meu Deus, aconteceu! — ela bateu as mãos na mesa, fazendo o garçom nos olhar de lado. — Me conta TUDO. Agora. Cada detalhe.
Me inclinei sobre a mesa, como se fosse um segredo de Estado. — Eu dormi no quarto dele.
Os olhos dela quase saltaram. — VOCÊ… — ela abaixou o tom, mas o sorriso só aumentou. — Ok, e aí?
Suspirei, apoiando o queixo na mão. — Ele é… lindo dormindo. Tipo, absurdamente lindo. Ele não tem aquele ar de príncipe. É só… .
— Lindo, gentil e…? — ela ergueu a sobrancelha, maliciosa.
— Um beijo incrível. — admiti, sentindo meu rosto esquentar. — Do tipo que te faz esquecer seu próprio nome por uns minutos.
Emily riu alto, atraindo olhares. — Eu tô muito feliz por você, amiga. Mas… — ela estreitou os olhos, como quem não resiste a um alerta — …continua com o pé no chão, tá? Príncipes são complicados.
— Eu sei me cuidar. — garanti, pegando meu café. — Mas, sinceramente? Por enquanto… eu só quero aproveitar.
E, pela primeira vez, eu disse isso sem sentir que estava mentindo pra mim mesma.
me convidara para um jantar “diferente”, sem dar muitos detalhes. Achei que fosse mais um daqueles eventos cheios de gente importante em que eu me sentia deslocada, mas, quando o carro parou, percebi que não.
Era um restaurante pequeno, iluminado por velas, escondido numa ruazinha de paralelepípedos. O tipo de lugar em que ninguém olharia duas vezes para um príncipe — exatamente o que ele queria.
Jantamos sem pressa. Ele estava mais leve do que o normal, rindo de qualquer coisa, como se o mundo lá fora não existisse. E, quando o prato principal foi retirado, ele levantou. Não de forma dramática, não ajoelhou no meio do salão como nos filmes. Apenas puxou minha cadeira levemente para o lado e ficou de pé diante de mim.
— … — ele começou, olhando nos meus olhos como se procurasse a resposta antes mesmo de perguntar. — Eu sei que sua vida já é cheia, que você não precisa de mim para nada. E é justamente por isso que… eu quero estar nela. Não para te salvar, nem para te mudar. Só… para estar.
Senti meu coração apertar. Ele não falava como príncipe naquele momento. Falava como um garoto que queria ter certeza de que não ia perder algo raro.
— Eu não sou o cara perfeito — continuou —, mas quero tentar ser alguém melhor com você. Então… quer namorar comigo?
Sorri, mais por nervosismo do que por outra coisa. Aquela simplicidade me pegou de surpresa. Não tinha coroas, câmeras ou discursos. Era só ele, à minha frente, esperando.
— Sim, — respondi, sentindo o frio da noite entrar pela porta quando alguém saiu. — Eu quero.
Ele se inclinou e me beijou, devagar, como se quisesse guardar aquele momento para sempre. E, naquele instante, eu realmente acreditei que estava começando algo puro.
Mal sabia que, no conto de fadas que me prometeram, algumas páginas viriam manchadas de tinta.
O estúdio improvisado na garagem tinha cordas de guitarra espalhadas, cheiro de café barato e pôsteres de bandas colados de qualquer jeito nas paredes. Era bagunça, mas era lar. O meu lar. Só que naquele dia, o espaço parecia menor, porque estava ali.
— , esse é o . — apresentei, sentindo a tensão antes mesmo das mãos se encontrarem. — , esse é o .
estendeu a mão, postura impecável, sorriso treinado de quem nasceu sob holofotes.
— Um prazer finalmente conhecê-lo.
apertou a mão dele com firmeza, mas arqueou a sobrancelha.
— Claro. O famoso príncipe britânico. — e então, sem perder o ritmo: — Vocês ainda estão cobrando impostos do meu país ou já desistiram?
Eu engasguei. manteve o sorriso, mas deu pra ver o músculo da mandíbula travar.
— Bem... isso foi há bastante tempo. Acredito que os Estados Unidos estão indo muito bem sozinhos.
riu, aquele riso rouco e debochado que sempre me desmontava.
— É. Tanto que agora a gente exporta cultura em vez de deixar vocês roubarem tudo.
— ! — falei, rindo sem conseguir me conter. — Pega leve.
Ele ergueu as mãos, inocente.
— O quê? Eu tô sendo histórico. Você não disse que a realeza adora tradição?
ajeitou a jaqueta com calma, cada movimento tão ensaiado quanto uma ópera.
— A tradição tem seu valor. Mantém a ordem.
não perdeu o timing.
— Claro. Igual aquelas estátuas coloniais que ninguém tem coragem de derrubar. Só ficam lá, ocupando espaço e lembrando todo mundo de coisas que ninguém devia se orgulhar.
Meu riso escapou alto demais, e tentei disfarçar bebendo água.
não riu. Não precisava ser um gênio pra ver o desconforto crescendo ali.
A primeira coisa que aprendi sobre foi que ele gostava de estar certo. A segunda, que fazia qualquer coisa para continuar certo — até mentir. A terceira, que só entendi tarde demais, foi que o silêncio dele podia ser mais violento do que qualquer grito.
No jardim, ao lado de , nada disso parecia importar. Ele estava ali como sempre esteve, com aquele jeito meio debochado de quem não respeitava nada que fosse “intocável”. Fez piadinhas sobre a realeza britânica, sobre colonialismo e museus cheios de arte roubada. Eu ri. Ri de verdade, aquele riso solto, meio escandaloso, que só saía quando eu esquecia de medir quem estava ouvindo.
me olhou do jeito que sempre olhava — como se eu fosse uma joia rara, mas não de vitrine. Daquelas imperfeitas, com marcas e rachaduras, mas que ainda assim brilham. Ele falou do projeto novo, da ideia de viajar, e disse que eu parecia diferente desde que comecei a namorar . Eu desconversei, fiz piada. Ele riu também, mas havia algo nos olhos dele que queimava. Não era amizade comum. Nunca foi. Havia uma linha invisível entre nós, sempre à beira de ser cruzada.
E viu.
Não disse nada ali, mas eu soube. Eu sempre sabia.
No carro, o silêncio dele não era apenas silêncio. Era uma sala inteira cheia de espelhos tortos, onde eu me via distorcida até não saber quem era. O som do motor desligado, os dedos dele batendo no volante, o maxilar travado. Eu tentei puxar assunto, falar de qualquer coisa — até do tempo. Ele não respondeu.
Até que respondeu.
— Você não acha que foi… demais?
Demais? Eu nem entendi no começo. Perguntei “o quê?”, como se não tivesse a menor ideia do que ele estava insinuando.
— Você rindo daquele jeito com ele. Parecia que queria que ele te beijasse ali mesmo.
O mundo parou por um instante. ? Como um irmão. Sempre foi. sabia disso, certo? Eu repeti essa frase como um mantra, como quem tenta abrir uma porta trancada com a chave errada.
— Não fala besteira, . é como um irmão pra mim.
Ele virou o rosto devagar, e eu já sabia que vinha algo afiado. Algo que faria parecer que a dor era minha culpa.
— Então para de agir como se não fosse.
E então veio a sentença, a faca mais bem escondida que ele tinha:
— Você me deixa doente de tanto que me faz duvidar de você.
Eu não sabia o que responder. Então pedi desculpas. Como sempre fazia quando sentia que ele estava decepcionado comigo. Como se o erro sempre fosse meu, por rir alto demais, por ser gentil demais, por não perceber que, aos poucos, estava encolhendo para caber no espaço que deixava.
Meu estômago afundou. Eu queria gritar que não era justo, que ele estava inventando, que eu nunca faria nada para trair sua confiança. Mas não saiu nada. Só o pedido de desculpas. Automático. Rápido. Como sempre.
Pedi desculpas por rir alto demais.
Por ser gentil demais.
Por ser eu mesma demais.
E foi assim que comecei a encolher.
Dois dias depois da cena no carro, apareceu na garagem. Não era comum. Ele não gostava do “caos criativo” como chamava o estúdio improvisado — pilhas de cabos, cheiro de café frio e caixas de som ocupando o espaço como se fossem móveis. Mas naquela tarde chuvosa, ele entrou como se pertencesse, com o guarda-chuva ainda pingando na entrada.
— — a voz dele soou calma, mas havia um peso escondido, como se cada sílaba tivesse sido ensaiada. — Eu vim… conversar.
não estava lá. Sorte minha. Eu não teria aguentado o olhar atravessado dele naquele momento.
largou o guarda-chuva, ajeitou a gola do casaco e ficou de pé, ereto, como se estivesse prestes a discursar.
— Eu queria pedir desculpas — começou. — Pelo que aconteceu no carro. Pelo que eu disse. Eu não devia ter levantado a voz.
Eu o encarei, surpresa. Ele raramente dizia “desculpa”. Nunca sozinho. Sempre vinha junto de uma explicação, uma razão, uma troca.
— Eu… — a voz saiu pequena, sem força. — Eu fiquei mal.
Ele assentiu, quase aliviado, como se tivesse esperado exatamente aquela resposta.
— Eu sei. E não é o que eu quero. Eu só… me deixei levar. Eu sinto ciúmes, . Dele. Do . É inevitável. Vocês têm uma ligação. Eu vejo isso. E me sinto… — ele fez uma pausa longa, inspirada, calculada — me sinto inseguro. Como se eu fosse sempre o intruso.
O coração bateu estranho. A confissão parecia honesta, mas no fundo vinha carregada de um veneno doce: a culpa voltava para mim. Como se rir com fosse o crime, e , a vítima.
— … — tentei, mas ele me interrompeu com um gesto suave.
— Eu sei que você não quis me machucar. Mas às vezes parece. Você sorri diferente com ele. É como se você fosse mais… viva. E isso me assusta. Porque eu quero ser esse alguém pra você.
Ele se aproximou, a mão alcançando a minha, quente e firme.
— Então me desculpa. Me desculpa por sentir medo de te perder. Eu te amo, . Só não sei amar do jeito certo todas as vezes.
Era o que eu conhecia. O arrependido, vulnerável, que me desmontava porque parecia real. Porque falava as palavras que eu queria ouvir.
E, como sempre, eu disse o que ele precisava:
— Eu também te amo.
Mas dentro da garagem, entre cordas de guitarra espalhadas e cartazes desbotados de bandas que gritavam liberdade, uma parte de mim sussurrou baixo: Mas será que amo de verdade? Ou só aprendi a pedir desculpas antes de sentir?
Eu sempre achei engraçado como as pessoas falam “é só uma festa” quando estão prestes a me colocar no meio de um evento em que cada detalhe — do tom da minha maquiagem ao comprimento da minha saia — já foi decidido antes mesmo de eu chegar.
Dessa vez, não.
Essa era a minha noite também.
Fechei a porta do quarto de hotel, sentei diante do espelho e espalhei meus pincéis e paletas na penteadeira. Nada de maquiadores reais, nada de “tons discretos que a rainha aprova”. Escolhi o batom que eu usava desde os treze, o delineado que eu mesma aprendi a fazer torto até acertar, e o iluminador que parecia sol no meu rosto.
O vestido… ah, o vestido. Azul escuro, simples, mas com um corte que me deixava confortável e segura. Eu não queria parecer uma peça de vitrine. Queria parecer… eu. Perfume? O meu. Não aquele que a assistente da rainha tinha “gentilmente sugerido” no último evento.
Emily bateu na porta e entrou sem esperar resposta.
— Meu Deus, … — ela colocou a mão na boca, dramática. — Você vai acabar com ele hoje.
— Com ele quem? — provoquei, fingindo não entender.
— O aniversariante, óbvio. — ela riu e se sentou na cama. — Você tá… você mesma. É diferente.
— É a ideia. — sorri, ajeitando o vestido.
Quando desci do carro, o palácio parecia ainda maior do que nas outras vezes. As luzes douradas refletiam nas janelas, o som distante de risos e passos ecoava no mármore. Guardas parados como estátuas, tapete impecável, e convidados desfilando como se estivessem em um filme de época.
Cada vestido brilhava como se cada mulher ali estivesse competindo por uma coroa invisível. E talvez estivessem. Os olhares se viraram para mim. Alguns curiosos, outros… avaliadores. Cumprimentei quem precisava, sorrindo no tom certo — aquele sorriso que não mostra todos os dentes e não dura mais que três segundos.
não estava à vista, o que me deixou com uma pontinha de ansiedade. Fiquei perto de uma das janelas, observando o movimento, tentando absorver cada detalhe sem parecer deslocada.
“E agora, para o aniversariante…”
Meu nome foi chamado.
O salão diminuiu o barulho, como se alguém tivesse abaixado o volume geral. Respirei fundo, sentindo aquele frio no estômago — não o medo de errar, mas aquela descarga elétrica de saber que algo importante está para acontecer.
Subi no pequeno palco improvisado. O microfone estava frio na minha mão. Olhei para o público e, antes que pudessem imaginar um show grandioso, comecei.
A música era calma, suave, com acordes que pareciam respirar. Não escolhi para impressionar. Escolhi para me mostrar. E, no meio da primeira estrofe, encontrei os olhos dele.
estava ali, parado, olhando como se o resto do salão tivesse evaporado. Eu continuei cantando, mas cada palavra parecia ir direto para ele.
Quando terminei, houve um segundo de silêncio, seguido por aplausos que encheram o salão. Alguns eram educados, formais; outros pareciam sinceros. A rainha sorriu — um sorriso pequeno, calculado, mas ainda assim um sorriso.
E então começou a atravessar o salão. Não apressado, mas decidido. Pessoas tentaram parar para cumprimentá-lo, mas ele continuou, desviando com a elegância de quem já nasceu sabendo ser centro das atenções.
— Isso foi… inacreditável. — disse, segurando minha mão como se fosse parte da música. — Você acabou de roubar a cena no meu aniversário. E olha que eu sou o aniversariante. — Não era minha intenção. — minha voz ainda tinha o resquício da música.
— Eu sei. É isso que te faz ser assim… — ele deu um passo à frente, aproximando-se mais — …diferente.
Alguém o chamou pelo nome. Ele não olhou.
— Se eu pudesse escolher qualquer presente hoje, seria exatamente isso. Você. Aqui.
Não sei se foi ele que me puxou ou se fui eu que dei o passo, mas de repente estávamos dançando, ali mesmo, ao lado do palco. Sem música, sem protocolo.
Algumas pessoas olhavam. Outras fingiam não ver.
— Está todo mundo olhando. — sussurrei.
— Deixa. — ele respondeu, o olhar preso no meu. — Hoje é meu aniversário. Posso fazer o que eu quiser.
E, pela primeira vez, não me senti uma peça que alguém encaixou num jogo de xadrez. Não me senti “a filha do ator favorito da rainha”. Naquele momento, dançando com ele no meio de toda aquela pompa, eu só me senti… eu.
E, por mais que eu não soubesse explicar, parecia que eu pertencia àquele instante.
Eu não queria parar de sorrir.
Talvez fosse o efeito da música, talvez o fato de todos terem me olhado sem que eu me sentisse uma fraude… ou talvez fosse só ele.
Ainda dançávamos devagar, no canto, enquanto o resto do salão retomava a festa. O vestido roçava levemente nas minhas pernas, e o calor da mão dele na minha cintura parecia queimar.
— Você percebeu? — perguntei, ofegante. — Eu não errei uma nota.
— Eu percebi. — ele sorriu, inclinando o rosto para perto. — Mas mesmo que tivesse errado, ninguém ia lembrar. Você tinha todo mundo na palma da mão.
Meu coração batia tão rápido que eu quase ri.
— Eu tinha medo de me sentir… fora do lugar. Mas agora… — respirei fundo — …parece que tudo fez sentido.
— Não é só você que sente isso. — ele disse, sério, como se confessasse algo que não podia sair dali. — Eu não queria que a noite acabasse.
A música do salão ficou mais alta, e alguém passou chamando pelo nome dele. Ele ignorou.
— Vem comigo.
Não perguntei pra onde. Peguei na mão dele e seguimos por um dos corredores laterais, longe das luzes principais. A cada passo, a adrenalina aumentava. Era como fugir de algo, mas sem saber exatamente o quê.
Entramos em um quarto — não sei se era dele, não sei se era de hóspedes. Tudo parecia maior, mais silencioso e… diferente. fechou a porta devagar, encostando-se nela.
— Você está linda. — ele disse, sem hesitar. — E não é só hoje. Você é linda quando acorda, quando canta, quando briga comigo.
Eu ri. — Você nunca me viu acordando.
— Então me deixa ver. — ele sorriu de um jeito que não era só charme, era quase um pedido.
Fiquei em silêncio por um segundo. O coração martelava no peito. Ele se aproximou e, dessa vez, não pediu permissão. O beijo foi lento, profundo, como se ele quisesse memorizar cada segundo. Eu me perdi ali, no gosto, no cheiro, na forma como o mundo pareceu fechar a porta junto com ele.
O resto da noite… bom, digamos que eu não voltei para o hotel.
A primeira coisa que senti foi o silêncio. Não aquele silêncio gelado de eventos formais, mas um silêncio quente, que envolvia, como se até o ar tivesse decidido dormir um pouco mais.
A segunda coisa foi o peso leve de um braço sobre minha cintura.
Abri os olhos devagar. A luz do amanhecer filtrava pelas cortinas pesadas do quarto, criando faixas douradas na parede. Por um segundo, precisei me lembrar de onde estava. Então olhei para o lado.
dormia.
O cabelo, sempre perfeitamente arrumado em público, caía de um jeito bagunçado e natural sobre a testa. O rosto parecia mais suave sem o peso do sorriso calculado ou da postura de príncipe. As sardas ficavam mais visíveis, espalhadas como um segredo que só podia ser visto de perto.
Ele respirava fundo, num ritmo constante, com os lábios entreabertos. Por um instante, parecia mais novo… ou talvez fosse só porque estava, pela primeira vez, completamente despreocupado.
Observei cada detalhe, como se quisesse gravar na memória. O formato do nariz, a curva do maxilar, o jeito que a mão dele relaxava, ainda próxima de mim, como se inconscientemente quisesse garantir que eu não fosse embora.
Não sei quanto tempo fiquei assim. Podia ouvir meu próprio coração, mas não queria que ele acordasse. Porque naquele momento, olhando para ele, parecia que tudo era possível.
E, por mais que eu soubesse que o mundo lá fora estava cheio de regras, títulos e expectativas… aqui dentro, entre quatro paredes, ele era só .
E eu… só eu.
Eu já estava com o celular na mão antes mesmo de chegar no café. Emily me mandara um “precisamos conversar URGENTE” antes das oito da manhã, o que só podia significar uma coisa: ela sabia que algo tinha acontecido.
Quando entrei, ela já estava na nossa mesa de sempre, tomando café como se fosse água e me olhando com aquele sorriso de quem não ia ter piedade.
— Então…? — ela começou, antes mesmo que eu sentasse. — Não me venha com “não aconteceu nada”, porque você sumiu ontem à noite e não voltou pro hotel.
Tentei manter a compostura, mas minha boca traiu minha intenção e abriu um sorriso enorme.
— Emily…
— Meu Deus, aconteceu! — ela bateu as mãos na mesa, fazendo o garçom nos olhar de lado. — Me conta TUDO. Agora. Cada detalhe.
Me inclinei sobre a mesa, como se fosse um segredo de Estado. — Eu dormi no quarto dele.
Os olhos dela quase saltaram. — VOCÊ… — ela abaixou o tom, mas o sorriso só aumentou. — Ok, e aí?
Suspirei, apoiando o queixo na mão. — Ele é… lindo dormindo. Tipo, absurdamente lindo. Ele não tem aquele ar de príncipe. É só… .
— Lindo, gentil e…? — ela ergueu a sobrancelha, maliciosa.
— Um beijo incrível. — admiti, sentindo meu rosto esquentar. — Do tipo que te faz esquecer seu próprio nome por uns minutos.
Emily riu alto, atraindo olhares. — Eu tô muito feliz por você, amiga. Mas… — ela estreitou os olhos, como quem não resiste a um alerta — …continua com o pé no chão, tá? Príncipes são complicados.
— Eu sei me cuidar. — garanti, pegando meu café. — Mas, sinceramente? Por enquanto… eu só quero aproveitar.
E, pela primeira vez, eu disse isso sem sentir que estava mentindo pra mim mesma.
me convidara para um jantar “diferente”, sem dar muitos detalhes. Achei que fosse mais um daqueles eventos cheios de gente importante em que eu me sentia deslocada, mas, quando o carro parou, percebi que não.
Era um restaurante pequeno, iluminado por velas, escondido numa ruazinha de paralelepípedos. O tipo de lugar em que ninguém olharia duas vezes para um príncipe — exatamente o que ele queria.
Jantamos sem pressa. Ele estava mais leve do que o normal, rindo de qualquer coisa, como se o mundo lá fora não existisse. E, quando o prato principal foi retirado, ele levantou. Não de forma dramática, não ajoelhou no meio do salão como nos filmes. Apenas puxou minha cadeira levemente para o lado e ficou de pé diante de mim.
— … — ele começou, olhando nos meus olhos como se procurasse a resposta antes mesmo de perguntar. — Eu sei que sua vida já é cheia, que você não precisa de mim para nada. E é justamente por isso que… eu quero estar nela. Não para te salvar, nem para te mudar. Só… para estar.
Senti meu coração apertar. Ele não falava como príncipe naquele momento. Falava como um garoto que queria ter certeza de que não ia perder algo raro.
— Eu não sou o cara perfeito — continuou —, mas quero tentar ser alguém melhor com você. Então… quer namorar comigo?
Sorri, mais por nervosismo do que por outra coisa. Aquela simplicidade me pegou de surpresa. Não tinha coroas, câmeras ou discursos. Era só ele, à minha frente, esperando.
— Sim, — respondi, sentindo o frio da noite entrar pela porta quando alguém saiu. — Eu quero.
Ele se inclinou e me beijou, devagar, como se quisesse guardar aquele momento para sempre. E, naquele instante, eu realmente acreditei que estava começando algo puro.
Mal sabia que, no conto de fadas que me prometeram, algumas páginas viriam manchadas de tinta.
O estúdio improvisado na garagem tinha cordas de guitarra espalhadas, cheiro de café barato e pôsteres de bandas colados de qualquer jeito nas paredes. Era bagunça, mas era lar. O meu lar. Só que naquele dia, o espaço parecia menor, porque estava ali.
— , esse é o . — apresentei, sentindo a tensão antes mesmo das mãos se encontrarem. — , esse é o .
estendeu a mão, postura impecável, sorriso treinado de quem nasceu sob holofotes.
— Um prazer finalmente conhecê-lo.
apertou a mão dele com firmeza, mas arqueou a sobrancelha.
— Claro. O famoso príncipe britânico. — e então, sem perder o ritmo: — Vocês ainda estão cobrando impostos do meu país ou já desistiram?
Eu engasguei. manteve o sorriso, mas deu pra ver o músculo da mandíbula travar.
— Bem... isso foi há bastante tempo. Acredito que os Estados Unidos estão indo muito bem sozinhos.
riu, aquele riso rouco e debochado que sempre me desmontava.
— É. Tanto que agora a gente exporta cultura em vez de deixar vocês roubarem tudo.
— ! — falei, rindo sem conseguir me conter. — Pega leve.
Ele ergueu as mãos, inocente.
— O quê? Eu tô sendo histórico. Você não disse que a realeza adora tradição?
ajeitou a jaqueta com calma, cada movimento tão ensaiado quanto uma ópera.
— A tradição tem seu valor. Mantém a ordem.
não perdeu o timing.
— Claro. Igual aquelas estátuas coloniais que ninguém tem coragem de derrubar. Só ficam lá, ocupando espaço e lembrando todo mundo de coisas que ninguém devia se orgulhar.
Meu riso escapou alto demais, e tentei disfarçar bebendo água.
não riu. Não precisava ser um gênio pra ver o desconforto crescendo ali.
A primeira coisa que aprendi sobre foi que ele gostava de estar certo. A segunda, que fazia qualquer coisa para continuar certo — até mentir. A terceira, que só entendi tarde demais, foi que o silêncio dele podia ser mais violento do que qualquer grito.
No jardim, ao lado de , nada disso parecia importar. Ele estava ali como sempre esteve, com aquele jeito meio debochado de quem não respeitava nada que fosse “intocável”. Fez piadinhas sobre a realeza britânica, sobre colonialismo e museus cheios de arte roubada. Eu ri. Ri de verdade, aquele riso solto, meio escandaloso, que só saía quando eu esquecia de medir quem estava ouvindo.
me olhou do jeito que sempre olhava — como se eu fosse uma joia rara, mas não de vitrine. Daquelas imperfeitas, com marcas e rachaduras, mas que ainda assim brilham. Ele falou do projeto novo, da ideia de viajar, e disse que eu parecia diferente desde que comecei a namorar . Eu desconversei, fiz piada. Ele riu também, mas havia algo nos olhos dele que queimava. Não era amizade comum. Nunca foi. Havia uma linha invisível entre nós, sempre à beira de ser cruzada.
E viu.
Não disse nada ali, mas eu soube. Eu sempre sabia.
No carro, o silêncio dele não era apenas silêncio. Era uma sala inteira cheia de espelhos tortos, onde eu me via distorcida até não saber quem era. O som do motor desligado, os dedos dele batendo no volante, o maxilar travado. Eu tentei puxar assunto, falar de qualquer coisa — até do tempo. Ele não respondeu.
Até que respondeu.
— Você não acha que foi… demais?
Demais? Eu nem entendi no começo. Perguntei “o quê?”, como se não tivesse a menor ideia do que ele estava insinuando.
— Você rindo daquele jeito com ele. Parecia que queria que ele te beijasse ali mesmo.
O mundo parou por um instante. ? Como um irmão. Sempre foi. sabia disso, certo? Eu repeti essa frase como um mantra, como quem tenta abrir uma porta trancada com a chave errada.
— Não fala besteira, . é como um irmão pra mim.
Ele virou o rosto devagar, e eu já sabia que vinha algo afiado. Algo que faria parecer que a dor era minha culpa.
— Então para de agir como se não fosse.
E então veio a sentença, a faca mais bem escondida que ele tinha:
— Você me deixa doente de tanto que me faz duvidar de você.
Eu não sabia o que responder. Então pedi desculpas. Como sempre fazia quando sentia que ele estava decepcionado comigo. Como se o erro sempre fosse meu, por rir alto demais, por ser gentil demais, por não perceber que, aos poucos, estava encolhendo para caber no espaço que deixava.
Meu estômago afundou. Eu queria gritar que não era justo, que ele estava inventando, que eu nunca faria nada para trair sua confiança. Mas não saiu nada. Só o pedido de desculpas. Automático. Rápido. Como sempre.
Pedi desculpas por rir alto demais.
Por ser gentil demais.
Por ser eu mesma demais.
E foi assim que comecei a encolher.
Dois dias depois da cena no carro, apareceu na garagem. Não era comum. Ele não gostava do “caos criativo” como chamava o estúdio improvisado — pilhas de cabos, cheiro de café frio e caixas de som ocupando o espaço como se fossem móveis. Mas naquela tarde chuvosa, ele entrou como se pertencesse, com o guarda-chuva ainda pingando na entrada.
— — a voz dele soou calma, mas havia um peso escondido, como se cada sílaba tivesse sido ensaiada. — Eu vim… conversar.
não estava lá. Sorte minha. Eu não teria aguentado o olhar atravessado dele naquele momento.
largou o guarda-chuva, ajeitou a gola do casaco e ficou de pé, ereto, como se estivesse prestes a discursar.
— Eu queria pedir desculpas — começou. — Pelo que aconteceu no carro. Pelo que eu disse. Eu não devia ter levantado a voz.
Eu o encarei, surpresa. Ele raramente dizia “desculpa”. Nunca sozinho. Sempre vinha junto de uma explicação, uma razão, uma troca.
— Eu… — a voz saiu pequena, sem força. — Eu fiquei mal.
Ele assentiu, quase aliviado, como se tivesse esperado exatamente aquela resposta.
— Eu sei. E não é o que eu quero. Eu só… me deixei levar. Eu sinto ciúmes, . Dele. Do . É inevitável. Vocês têm uma ligação. Eu vejo isso. E me sinto… — ele fez uma pausa longa, inspirada, calculada — me sinto inseguro. Como se eu fosse sempre o intruso.
O coração bateu estranho. A confissão parecia honesta, mas no fundo vinha carregada de um veneno doce: a culpa voltava para mim. Como se rir com fosse o crime, e , a vítima.
— … — tentei, mas ele me interrompeu com um gesto suave.
— Eu sei que você não quis me machucar. Mas às vezes parece. Você sorri diferente com ele. É como se você fosse mais… viva. E isso me assusta. Porque eu quero ser esse alguém pra você.
Ele se aproximou, a mão alcançando a minha, quente e firme.
— Então me desculpa. Me desculpa por sentir medo de te perder. Eu te amo, . Só não sei amar do jeito certo todas as vezes.
Era o que eu conhecia. O arrependido, vulnerável, que me desmontava porque parecia real. Porque falava as palavras que eu queria ouvir.
E, como sempre, eu disse o que ele precisava:
— Eu também te amo.
Mas dentro da garagem, entre cordas de guitarra espalhadas e cartazes desbotados de bandas que gritavam liberdade, uma parte de mim sussurrou baixo: Mas será que amo de verdade? Ou só aprendi a pedir desculpas antes de sentir?
Capítulo 04
Narrado por
As semanas seguintes foram um turbilhão. Eu e parecíamos encontrar novas formas de escapar da agenda sufocante dele — passeios no jardim escondido, conversas longas no carro enquanto o motorista fingia não ouvir, risos abafados no canto de um salão lotado.
Eu conheci mais da família dele. Mais do que qualquer revista poderia mostrar. Vi o lado humano por trás das portas douradas — e também, aos poucos, vi o lado que eles preferiam esconder.
No começo, foi quase imperceptível. Uma assessora da rainha me sugeriu “brincos mais discretos” para um evento oficial. Uma tia distante comentou, sorrindo, que minha saia “ficaria ainda mais elegante” se fosse dois centímetros mais comprida. Um conselheiro real, com a falsa delicadeza de quem mexe em uma obra de arte, pediu para eu me sentar “um pouco mais ereta” durante as fotos. Não era nada demais, eu dizia para mim mesma. Só etiqueta. Só protocolo.
Mas, pouco a pouco, notei que estavam podando as pontas soltas da que eles conheciam. As roupas começaram a vir prontas, entregues por uma estilista “amiga da família” — que jurava ter captado minha essência, mas curiosamente sempre optava por tons neutros e cortes conservadores. Minhas respostas em entrevistas eram “revisadas” antes de serem dadas. E, quando eu dizia algo espontâneo demais, via o leve arquear de sobrancelhas ao redor.
Mesmo assim, eu aceitava. Porque quando aparecia, com aquele jeito de quebrar o protocolo só para me fazer rir, tudo parecia valer a pena. Eu pensava: Se é o preço para estar com ele, então eu pago.
O próximo evento foi diferente. Não era um grande baile nem o aniversário de ninguém importante. Era um jantar “informal” com amigos da família real e alguns convidados selecionados — o tipo de noite em que todo mundo ainda estava impecável, mas fingia que não.
A rainha me recebeu com um sorriso polido e um comentário sobre como eu estava “muito mais alinhada ao espírito da corte”. Eu agradeci, como se fosse um elogio. Mas, no fundo, uma parte de mim se perguntou: Será que ela quer dizer que estou mais parecida com o que eles querem que eu seja?
Ainda assim, fiquei. Rimos, brindamos, trocamos olhares cúmplices. E a primeira semente do desconforto, plantada bem fundo naquela noite, foi enterrada por um beijo de no fim da festa. Porque, naquela fase, eu ainda acreditava que amor era suficiente para silenciar qualquer dúvida.
Acordei com o celular vibrando sem parar na mesa de cabeceira. No começo, achei que fosse mais um daqueles grupos de amigas mandando memes antes do café da manhã. Mas, quando abri a tela, o riso me fugiu.
Havia dezenas de notificações. Mensagens com links, capturas de tela, perguntas que eu não sabia responder. E, no centro de tudo, uma foto nossa — minha e de — estampada na capa de um tabloide.
A manchete gritava:
“Seguindo os Passos do Pai? O Passado Escandaloso da Família de ”
No texto, entre frases carregadas de insinuação, vinha um “histórico” dele. E junto, como se fosse inevitável, um retrato antigo de seu pai, ao lado da mãe de … seguido por fotos ainda mais antigas, em ângulos comprometedores com outras mulheres.
Os jornalistas escreviam como se fosse um roteiro inevitável: o filho, cedo ou tarde, repetiria o destino do pai. E eu, ali, apenas figurante de uma tragédia anunciada.
Nunca, em nenhum dos nossos encontros, havia me contado isso. Nem uma pista, nem um comentário vago. E, de repente, a intimidade que eu julgava nossa parecia cheia de portas fechadas.
Li e reli cada parágrafo, até que as palavras começaram a se embaralhar. Os boatos vinham com datas, lugares, nomes — e, pior, provas. Não eram só fofocas jogadas ao vento. E, no fim, um parágrafo inteiro dedicado a “analisar” o nosso relacionamento:
“Amigos próximos dizem que está apaixonado, mas resta saber se o sangue falará mais alto.”
Meu estômago se revirou. Não pelo que diziam sobre mim — eu já esperava ser julgada, criticada, medida com réguas invisíveis. Mas pelo que diziam sobre ele. E pela pergunta que eu não queria fazer: Será que é verdade?
Senti o gosto amargo de algo que não sabia nomear. Não era ciúme. Não era exatamente raiva. Era a estranha sensação de estar vivendo ao lado de alguém e, ainda assim, não conhecer todos os corredores da sua história.
A internet estava em chamas. Comentários pipocavam nas redes sociais. Alguns defendiam , dizendo que não se pode culpar um filho pelos erros do pai. Outros… outros faziam piadas, comparações cruéis, insinuações que me deixavam com vontade de fechar os olhos e desaparecer.
Na sala ao lado, ouvi passos. Era . Ele entrou como se nada tivesse acontecido, ainda com o cabelo molhado do banho, camisa meio aberta, sorrindo para mim. Eu me virei para ele, segurando o celular como se fosse uma prova de algum crime.
— Você já viu isso? — perguntei, tentando manter a voz firme.
O sorriso dele vacilou por um segundo. Pequeno, mas perceptível. Então, suspirou, sentando-se à minha frente.
— Vi — respondeu. — E não quero que você se preocupe. É só a imprensa tentando ganhar cliques.
Mas “só” não era uma palavra suficiente para o que eu estava sentindo. Porque agora, além das fofocas, havia uma nova sombra: o silêncio de sobre algo que, aparentemente, todos já sabiam.
E foi nesse instante que percebi: o amor que eu acreditava ser suficiente começava a dividir espaço com perguntas que eu nunca pensei que precisaria fazer.
Seis meses.
Era assim que a imprensa definia meu namoro com agora — como se o tempo pudesse ser resumido a um número, sem mencionar tudo o que havia dentro dele. Nesse meio ano, minha carreira musical tinha dado saltos que eu nem sonhava: músicas no topo das paradas, entrevistas, convites para eventos que antes pareciam inalcançáveis.
O evento daquela noite, um concerto beneficente com presença da realeza, deveria ser uma celebração. Para mim, no entanto, começou com uma sensação estranha já nas primeiras horas da preparação.
Me levaram para uma sala ampla, iluminada por luzes fortes, o ar impregnado com cheiro de spray fixador e perfume caro. Uma equipe inteira me cercou: uma maquiadora que falava comigo como se eu fosse uma tela em branco, uma cabeleireira que puxava e torcia meus fios com precisão quase militar, uma estilista que passava cabides diante de mim como quem escolhe vitrine.
Vestiram-me com um vestido justo, de um tom que não teria escolhido sozinha. Brilhos que captavam a luz de forma calculada. Um perfume adocicado borrifado nos pulsos, atrás das orelhas, até que o aroma se tornasse parte de mim — ou me engolisse por inteiro.
Senti-me uma boneca sendo polida para exposição. Uma Barbie moldada para agradar um público que eu nem conhecia, vendida com um sorriso pronto. A cada toque, cada “perfeito” murmurando ao redor, eu sentia menos de mim mesma e mais da imagem que queriam que eu fosse.
No carro a caminho do evento, tentei recuperar o fôlego. , impecável no terno, estava ao meu lado, mas seu olhar estava longe, como se já estivesse no palco social antes mesmo de chegarmos.
Dentro do salão, as luzes eram mais quentes e os olhares mais afiados. A música ao fundo competia com o burburinho das conversas. E foi então que percebi.
Os olhos de . Seguindo discretamente — ou talvez nem tanto — algumas mulheres que passavam. Olhares prolongados, rápidos o suficiente para não serem óbvios, mas longos demais para serem casuais.
Tentei ignorar. Me forcei a sorrir, a acenar, a agradecer cumprimentos. Mas, lá no fundo, uma pontada atravessou meu peito. Não era só ciúme. Era a lembrança do que eu tinha lido sobre o pai dele. O eco daquela dúvida que eu ainda não tinha coragem de colocar em palavras.
À medida que a noite avançava, notei outra mudança: ficava diferente perto de certos familiares. O sorriso dele diminuía, o toque se afastava. As respostas vinham curtas, ensaiadas. Era como se ele se tornasse outra pessoa — mais contida, mais fria — quando cercado por aqueles olhares azuis e calculistas que eu já começava a reconhecer como típicos da família real.
No palco, minha música tocava. Mas eu, mesmo ali, vestida como queriam, acompanhada por ele, me sentia distante. Como se fosse apenas parte de um cenário cuidadosamente montado. E a pior parte era perceber que, talvez, eu já tivesse começado a aprender a fingir que estava tudo bem.
A madrugada caiu sobre mim como um cobertor pesado. Voltamos para o palácio em silêncio, o carro deslizando pelas ruas quase vazias, enquanto as luzes da cidade piscavam lá fora como se não tivessem nada a ver com o que acontecia dentro.
mexia no celular, respondendo mensagens. A cada toque da tela, um clarão iluminava seu rosto — impassível, distante. Eu olhava para ele de soslaio, tentando decifrar se aquele distanciamento era cansaço ou algo mais profundo.
Quando chegamos, ele beijou minha testa de forma rápida, quase automática, e disse que precisava “resolver algumas coisas” antes de dormir. Fiquei no corredor, vendo-o se afastar até desaparecer por trás de uma porta pesada.
Entrei no quarto e fiquei parada diante do espelho. A maquiagem ainda intacta, o vestido ainda perfeito, o perfume ainda presente. Mas nada daquilo era meu. Eu não me reconhecia. A imagem refletida parecia de outra mulher — aquela que a equipe moldou, que o público queria, mas que eu não sentia ser eu.
Sentei na beira da cama, tentando voltar a respirar como antes. A pontada que senti no evento não tinha ido embora. Ela se espalhava agora, como se buscasse espaço para crescer. Era insegurança, sim, mas também algo mais perigoso: a sensação de que eu estava entrando num jogo cujas regras ninguém me explicou.
No dia seguinte, acordei com o som das notificações. As fotos da noite anterior estavam em todos os lugares: deslumbra em evento beneficente ao lado do príncipe. Comentários sobre o vestido, sobre minha postura, sobre como “estávamos feitos um para o outro”. Nenhuma foto mostrava o instante em que ele desviou o olhar de mim para outra pessoa. Nenhuma manchete mencionava que quase não conversamos durante toda a noite.
Mais tarde, durante o café, ele apareceu. O sorriso ensaiado estava de volta, e ele me perguntou se eu estava animada para o próximo compromisso da semana. Fingi que sim. Não era hora de perguntar. Não ainda.
Mas, enquanto o via falar com naturalidade sobre a agenda, uma certeza silenciosa começou a se formar: havia algo entre nós que estava se quebrando. Não era visível, não ainda. Mas estava lá. Uma fratura invisível, crescendo devagar, esperando o momento certo para se abrir por completo.
A sala da rainha tinha aquele cheiro de móveis antigos polidos com cera e flores recém-trocadas. A luz do fim de tarde entrava pelas cortinas pesadas, pintando o tapete com um tom dourado. Ao centro, uma mesinha de chá impecavelmente posta, com xícaras de porcelana tão finas que pareciam poder se quebrar só com o olhar.
— , querida, sente-se — disse a rainha, com aquele tom que soava ao mesmo tempo como convite e ordem.
Obedeci. Um criado serviu o chá, e por alguns instantes só ouvimos o som suave da porcelana se tocando. Ela me observava como se estivesse avaliando uma obra de arte — ou um cavalo de corrida.
— Tenho notado… — começou ela, mexendo o açúcar com calma. — Que a reputação de melhorou muito desde que vocês começaram a namorar.
Mantive o sorriso educado.
— É mesmo?
— Sim — respondeu, olhando-me nos olhos. — A imprensa está mais favorável, as fofocas diminuíram. Você está fazendo um bom trabalho.
Um bom trabalho. Como se eu fosse uma funcionária encarregada de polir o nome de um príncipe problemático.
— Fico feliz que a senhora pense assim — disse, mantendo o tom neutro.
Mas por dentro, minha cabeça gritava. Eu não sou a mãe dele. Não é minha função mudá-lo, consertá-lo ou treiná-lo para se comportar. Não sou babá de homem nenhum.
A rainha bebeu um gole de chá, sem tirar os olhos de mim. Era nítido que ela estava tentando medir minhas reações.
O silêncio se alongou, e eu decidi preenchê-lo.
— Sabe, Majestade, eu cresci vendo como o mundo trata figuras públicas. Meu pai — imagino que a senhora saiba — sempre foi observado, comentado, julgado. E ainda assim, ele nunca precisou de alguém para “melhorar” a imagem dele. Ele fazia isso sozinho.
Vi um leve brilho nos olhos dela ao mencionar meu pai. Ela era fã declarada, eu sabia.
— Seu pai era… extraordinário — disse ela, quase nostálgica.
— E me ensinou algo essencial — continuei. — Que reputação se constrói com ações, não com quem você escolhe para estar ao seu lado.
Ela inclinou a cabeça, como quem ouve algo interessante, mas não comenta.
Por dentro, eu já sabia: eu não precisava desse título, nem do dinheiro, nem da proteção do palácio. Eu era filha de um astro de cinema, tinha meu próprio nome na música, minha própria vida.
Se algum dia as coisas entre mim e pegassem fogo de verdade, eu sairia pela porta sem olhar para trás. E não queria nem saber da opinião de ninguém — nem mesmo da rainha. A rainha pousou a xícara com precisão milimétrica, como se qualquer ruído extra fosse um erro protocolar.
— … — começou ela, num tom quase confidencial. — Ainda não está completo.
Franzi levemente o cenho, mas mantive o sorriso educado.
— Completo?
— Um homem precisa de uma mulher ao seu lado — continuou, como se fosse uma verdade absoluta gravada nas paredes do palácio. — Alguém que o apoie, que traga equilíbrio.
Fiquei em silêncio, esperando para ver até onde ela iria.
— Eu tenho certeza — disse, com um leve sorriso que parecia saber mais do que devia — que você é essa mulher, . Aquela que vai estabilizá-lo, prepará-lo para o futuro. E, claro… — ela ajeitou o colar de pérolas, olhando para a janela como se falasse do tempo — me dar bisnetinhos.
A palavra ficou ecoando na minha cabeça. Bisnetinhos.
Eu a encarei, ainda sorrindo, mas por dentro um turbilhão se formava. Ela falava como se minha vida já estivesse decidida, como se eu tivesse sido colocada nesse tabuleiro para cumprir um papel escrito por outras mãos.
Apoiar .
Equilibrar .
Dar herdeiros.
Tudo centrado nele. Sempre nele.
Enquanto a rainha me observava, eu pensava: É isso que eu quero para minha vida? Ser a peça que completa outra pessoa? Ter filhos por expectativa alheia e não por vontade minha?
Lembrei do meu pai, livre, criativo, apaixonado pelo que fazia. Lembrei de mim mesma, no palco, cantando minhas músicas para uma multidão que me conhecia por quem eu era, e não por quem eu acompanhava.
E, pela primeira vez desde que entrei naquele relacionamento, me ocorreu que talvez o maior desafio não fosse lidar com a mídia ou com os protocolos… mas com o fato de que, para o palácio, eu nunca passaria de um papel a ser desempenhado.
Sorri para a rainha, mantendo o tom leve.
— É… algo para se pensar, Majestade.
Mas, dentro de mim, eu já sabia que essa conversa não seria esquecida tão cedo.
As semanas seguintes foram um turbilhão. Eu e parecíamos encontrar novas formas de escapar da agenda sufocante dele — passeios no jardim escondido, conversas longas no carro enquanto o motorista fingia não ouvir, risos abafados no canto de um salão lotado.
Eu conheci mais da família dele. Mais do que qualquer revista poderia mostrar. Vi o lado humano por trás das portas douradas — e também, aos poucos, vi o lado que eles preferiam esconder.
No começo, foi quase imperceptível. Uma assessora da rainha me sugeriu “brincos mais discretos” para um evento oficial. Uma tia distante comentou, sorrindo, que minha saia “ficaria ainda mais elegante” se fosse dois centímetros mais comprida. Um conselheiro real, com a falsa delicadeza de quem mexe em uma obra de arte, pediu para eu me sentar “um pouco mais ereta” durante as fotos. Não era nada demais, eu dizia para mim mesma. Só etiqueta. Só protocolo.
Mas, pouco a pouco, notei que estavam podando as pontas soltas da que eles conheciam. As roupas começaram a vir prontas, entregues por uma estilista “amiga da família” — que jurava ter captado minha essência, mas curiosamente sempre optava por tons neutros e cortes conservadores. Minhas respostas em entrevistas eram “revisadas” antes de serem dadas. E, quando eu dizia algo espontâneo demais, via o leve arquear de sobrancelhas ao redor.
Mesmo assim, eu aceitava. Porque quando aparecia, com aquele jeito de quebrar o protocolo só para me fazer rir, tudo parecia valer a pena. Eu pensava: Se é o preço para estar com ele, então eu pago.
O próximo evento foi diferente. Não era um grande baile nem o aniversário de ninguém importante. Era um jantar “informal” com amigos da família real e alguns convidados selecionados — o tipo de noite em que todo mundo ainda estava impecável, mas fingia que não.
A rainha me recebeu com um sorriso polido e um comentário sobre como eu estava “muito mais alinhada ao espírito da corte”. Eu agradeci, como se fosse um elogio. Mas, no fundo, uma parte de mim se perguntou: Será que ela quer dizer que estou mais parecida com o que eles querem que eu seja?
Ainda assim, fiquei. Rimos, brindamos, trocamos olhares cúmplices. E a primeira semente do desconforto, plantada bem fundo naquela noite, foi enterrada por um beijo de no fim da festa. Porque, naquela fase, eu ainda acreditava que amor era suficiente para silenciar qualquer dúvida.
Acordei com o celular vibrando sem parar na mesa de cabeceira. No começo, achei que fosse mais um daqueles grupos de amigas mandando memes antes do café da manhã. Mas, quando abri a tela, o riso me fugiu.
Havia dezenas de notificações. Mensagens com links, capturas de tela, perguntas que eu não sabia responder. E, no centro de tudo, uma foto nossa — minha e de — estampada na capa de um tabloide.
A manchete gritava:
“Seguindo os Passos do Pai? O Passado Escandaloso da Família de ”
No texto, entre frases carregadas de insinuação, vinha um “histórico” dele. E junto, como se fosse inevitável, um retrato antigo de seu pai, ao lado da mãe de … seguido por fotos ainda mais antigas, em ângulos comprometedores com outras mulheres.
Os jornalistas escreviam como se fosse um roteiro inevitável: o filho, cedo ou tarde, repetiria o destino do pai. E eu, ali, apenas figurante de uma tragédia anunciada.
Nunca, em nenhum dos nossos encontros, havia me contado isso. Nem uma pista, nem um comentário vago. E, de repente, a intimidade que eu julgava nossa parecia cheia de portas fechadas.
Li e reli cada parágrafo, até que as palavras começaram a se embaralhar. Os boatos vinham com datas, lugares, nomes — e, pior, provas. Não eram só fofocas jogadas ao vento. E, no fim, um parágrafo inteiro dedicado a “analisar” o nosso relacionamento:
“Amigos próximos dizem que está apaixonado, mas resta saber se o sangue falará mais alto.”
Meu estômago se revirou. Não pelo que diziam sobre mim — eu já esperava ser julgada, criticada, medida com réguas invisíveis. Mas pelo que diziam sobre ele. E pela pergunta que eu não queria fazer: Será que é verdade?
Senti o gosto amargo de algo que não sabia nomear. Não era ciúme. Não era exatamente raiva. Era a estranha sensação de estar vivendo ao lado de alguém e, ainda assim, não conhecer todos os corredores da sua história.
A internet estava em chamas. Comentários pipocavam nas redes sociais. Alguns defendiam , dizendo que não se pode culpar um filho pelos erros do pai. Outros… outros faziam piadas, comparações cruéis, insinuações que me deixavam com vontade de fechar os olhos e desaparecer.
Na sala ao lado, ouvi passos. Era . Ele entrou como se nada tivesse acontecido, ainda com o cabelo molhado do banho, camisa meio aberta, sorrindo para mim. Eu me virei para ele, segurando o celular como se fosse uma prova de algum crime.
— Você já viu isso? — perguntei, tentando manter a voz firme.
O sorriso dele vacilou por um segundo. Pequeno, mas perceptível. Então, suspirou, sentando-se à minha frente.
— Vi — respondeu. — E não quero que você se preocupe. É só a imprensa tentando ganhar cliques.
Mas “só” não era uma palavra suficiente para o que eu estava sentindo. Porque agora, além das fofocas, havia uma nova sombra: o silêncio de sobre algo que, aparentemente, todos já sabiam.
E foi nesse instante que percebi: o amor que eu acreditava ser suficiente começava a dividir espaço com perguntas que eu nunca pensei que precisaria fazer.
Seis meses.
Era assim que a imprensa definia meu namoro com agora — como se o tempo pudesse ser resumido a um número, sem mencionar tudo o que havia dentro dele. Nesse meio ano, minha carreira musical tinha dado saltos que eu nem sonhava: músicas no topo das paradas, entrevistas, convites para eventos que antes pareciam inalcançáveis.
O evento daquela noite, um concerto beneficente com presença da realeza, deveria ser uma celebração. Para mim, no entanto, começou com uma sensação estranha já nas primeiras horas da preparação.
Me levaram para uma sala ampla, iluminada por luzes fortes, o ar impregnado com cheiro de spray fixador e perfume caro. Uma equipe inteira me cercou: uma maquiadora que falava comigo como se eu fosse uma tela em branco, uma cabeleireira que puxava e torcia meus fios com precisão quase militar, uma estilista que passava cabides diante de mim como quem escolhe vitrine.
Vestiram-me com um vestido justo, de um tom que não teria escolhido sozinha. Brilhos que captavam a luz de forma calculada. Um perfume adocicado borrifado nos pulsos, atrás das orelhas, até que o aroma se tornasse parte de mim — ou me engolisse por inteiro.
Senti-me uma boneca sendo polida para exposição. Uma Barbie moldada para agradar um público que eu nem conhecia, vendida com um sorriso pronto. A cada toque, cada “perfeito” murmurando ao redor, eu sentia menos de mim mesma e mais da imagem que queriam que eu fosse.
No carro a caminho do evento, tentei recuperar o fôlego. , impecável no terno, estava ao meu lado, mas seu olhar estava longe, como se já estivesse no palco social antes mesmo de chegarmos.
Dentro do salão, as luzes eram mais quentes e os olhares mais afiados. A música ao fundo competia com o burburinho das conversas. E foi então que percebi.
Os olhos de . Seguindo discretamente — ou talvez nem tanto — algumas mulheres que passavam. Olhares prolongados, rápidos o suficiente para não serem óbvios, mas longos demais para serem casuais.
Tentei ignorar. Me forcei a sorrir, a acenar, a agradecer cumprimentos. Mas, lá no fundo, uma pontada atravessou meu peito. Não era só ciúme. Era a lembrança do que eu tinha lido sobre o pai dele. O eco daquela dúvida que eu ainda não tinha coragem de colocar em palavras.
À medida que a noite avançava, notei outra mudança: ficava diferente perto de certos familiares. O sorriso dele diminuía, o toque se afastava. As respostas vinham curtas, ensaiadas. Era como se ele se tornasse outra pessoa — mais contida, mais fria — quando cercado por aqueles olhares azuis e calculistas que eu já começava a reconhecer como típicos da família real.
No palco, minha música tocava. Mas eu, mesmo ali, vestida como queriam, acompanhada por ele, me sentia distante. Como se fosse apenas parte de um cenário cuidadosamente montado. E a pior parte era perceber que, talvez, eu já tivesse começado a aprender a fingir que estava tudo bem.
A madrugada caiu sobre mim como um cobertor pesado. Voltamos para o palácio em silêncio, o carro deslizando pelas ruas quase vazias, enquanto as luzes da cidade piscavam lá fora como se não tivessem nada a ver com o que acontecia dentro.
mexia no celular, respondendo mensagens. A cada toque da tela, um clarão iluminava seu rosto — impassível, distante. Eu olhava para ele de soslaio, tentando decifrar se aquele distanciamento era cansaço ou algo mais profundo.
Quando chegamos, ele beijou minha testa de forma rápida, quase automática, e disse que precisava “resolver algumas coisas” antes de dormir. Fiquei no corredor, vendo-o se afastar até desaparecer por trás de uma porta pesada.
Entrei no quarto e fiquei parada diante do espelho. A maquiagem ainda intacta, o vestido ainda perfeito, o perfume ainda presente. Mas nada daquilo era meu. Eu não me reconhecia. A imagem refletida parecia de outra mulher — aquela que a equipe moldou, que o público queria, mas que eu não sentia ser eu.
Sentei na beira da cama, tentando voltar a respirar como antes. A pontada que senti no evento não tinha ido embora. Ela se espalhava agora, como se buscasse espaço para crescer. Era insegurança, sim, mas também algo mais perigoso: a sensação de que eu estava entrando num jogo cujas regras ninguém me explicou.
No dia seguinte, acordei com o som das notificações. As fotos da noite anterior estavam em todos os lugares: deslumbra em evento beneficente ao lado do príncipe. Comentários sobre o vestido, sobre minha postura, sobre como “estávamos feitos um para o outro”. Nenhuma foto mostrava o instante em que ele desviou o olhar de mim para outra pessoa. Nenhuma manchete mencionava que quase não conversamos durante toda a noite.
Mais tarde, durante o café, ele apareceu. O sorriso ensaiado estava de volta, e ele me perguntou se eu estava animada para o próximo compromisso da semana. Fingi que sim. Não era hora de perguntar. Não ainda.
Mas, enquanto o via falar com naturalidade sobre a agenda, uma certeza silenciosa começou a se formar: havia algo entre nós que estava se quebrando. Não era visível, não ainda. Mas estava lá. Uma fratura invisível, crescendo devagar, esperando o momento certo para se abrir por completo.
A sala da rainha tinha aquele cheiro de móveis antigos polidos com cera e flores recém-trocadas. A luz do fim de tarde entrava pelas cortinas pesadas, pintando o tapete com um tom dourado. Ao centro, uma mesinha de chá impecavelmente posta, com xícaras de porcelana tão finas que pareciam poder se quebrar só com o olhar.
— , querida, sente-se — disse a rainha, com aquele tom que soava ao mesmo tempo como convite e ordem.
Obedeci. Um criado serviu o chá, e por alguns instantes só ouvimos o som suave da porcelana se tocando. Ela me observava como se estivesse avaliando uma obra de arte — ou um cavalo de corrida.
— Tenho notado… — começou ela, mexendo o açúcar com calma. — Que a reputação de melhorou muito desde que vocês começaram a namorar.
Mantive o sorriso educado.
— É mesmo?
— Sim — respondeu, olhando-me nos olhos. — A imprensa está mais favorável, as fofocas diminuíram. Você está fazendo um bom trabalho.
Um bom trabalho. Como se eu fosse uma funcionária encarregada de polir o nome de um príncipe problemático.
— Fico feliz que a senhora pense assim — disse, mantendo o tom neutro.
Mas por dentro, minha cabeça gritava. Eu não sou a mãe dele. Não é minha função mudá-lo, consertá-lo ou treiná-lo para se comportar. Não sou babá de homem nenhum.
A rainha bebeu um gole de chá, sem tirar os olhos de mim. Era nítido que ela estava tentando medir minhas reações.
O silêncio se alongou, e eu decidi preenchê-lo.
— Sabe, Majestade, eu cresci vendo como o mundo trata figuras públicas. Meu pai — imagino que a senhora saiba — sempre foi observado, comentado, julgado. E ainda assim, ele nunca precisou de alguém para “melhorar” a imagem dele. Ele fazia isso sozinho.
Vi um leve brilho nos olhos dela ao mencionar meu pai. Ela era fã declarada, eu sabia.
— Seu pai era… extraordinário — disse ela, quase nostálgica.
— E me ensinou algo essencial — continuei. — Que reputação se constrói com ações, não com quem você escolhe para estar ao seu lado.
Ela inclinou a cabeça, como quem ouve algo interessante, mas não comenta.
Por dentro, eu já sabia: eu não precisava desse título, nem do dinheiro, nem da proteção do palácio. Eu era filha de um astro de cinema, tinha meu próprio nome na música, minha própria vida.
Se algum dia as coisas entre mim e pegassem fogo de verdade, eu sairia pela porta sem olhar para trás. E não queria nem saber da opinião de ninguém — nem mesmo da rainha. A rainha pousou a xícara com precisão milimétrica, como se qualquer ruído extra fosse um erro protocolar.
— … — começou ela, num tom quase confidencial. — Ainda não está completo.
Franzi levemente o cenho, mas mantive o sorriso educado.
— Completo?
— Um homem precisa de uma mulher ao seu lado — continuou, como se fosse uma verdade absoluta gravada nas paredes do palácio. — Alguém que o apoie, que traga equilíbrio.
Fiquei em silêncio, esperando para ver até onde ela iria.
— Eu tenho certeza — disse, com um leve sorriso que parecia saber mais do que devia — que você é essa mulher, . Aquela que vai estabilizá-lo, prepará-lo para o futuro. E, claro… — ela ajeitou o colar de pérolas, olhando para a janela como se falasse do tempo — me dar bisnetinhos.
A palavra ficou ecoando na minha cabeça. Bisnetinhos.
Eu a encarei, ainda sorrindo, mas por dentro um turbilhão se formava. Ela falava como se minha vida já estivesse decidida, como se eu tivesse sido colocada nesse tabuleiro para cumprir um papel escrito por outras mãos.
Apoiar .
Equilibrar .
Dar herdeiros.
Tudo centrado nele. Sempre nele.
Enquanto a rainha me observava, eu pensava: É isso que eu quero para minha vida? Ser a peça que completa outra pessoa? Ter filhos por expectativa alheia e não por vontade minha?
Lembrei do meu pai, livre, criativo, apaixonado pelo que fazia. Lembrei de mim mesma, no palco, cantando minhas músicas para uma multidão que me conhecia por quem eu era, e não por quem eu acompanhava.
E, pela primeira vez desde que entrei naquele relacionamento, me ocorreu que talvez o maior desafio não fosse lidar com a mídia ou com os protocolos… mas com o fato de que, para o palácio, eu nunca passaria de um papel a ser desempenhado.
Sorri para a rainha, mantendo o tom leve.
— É… algo para se pensar, Majestade.
Mas, dentro de mim, eu já sabia que essa conversa não seria esquecida tão cedo.
Capítulo 05
Contei tudo para Emily assim que voltei do encontro com a rainha. Sentei-me na cama, ainda tentando processar cada palavra, enquanto ela ouvia em silêncio.
— Ela falou como se minha vida já estivesse decidida — resumi, passando as mãos pelo rosto. — Que eu deveria ser quem equilibra , que eu preciso dar herdeiros, que é minha função mantê-lo no eixo. Como se eu fosse uma peça que encaixa no quebra-cabeça dele.
Emily arqueou as sobrancelhas. — Uau. É pesado.
— Pesado não, sufocante — corrigi. — Ela fala como se eu tivesse sido contratada para cuidar dele, como se eu fosse babá de homem adulto.
Emily suspirou, mas não tentou me consolar com clichês. Era algo que eu gostava nela: sempre dizia a verdade nua e crua.
— , vou ser bem sincera: se você ficar nessa, vai acabar esquecendo quem você é. Você sempre foi muito mais que o “apoio” de alguém.
Hesitei antes de abrir a parte que mais me queimava por dentro. — Eu também me afastei do … porque pediu.
Emily piscou, surpresa. — Como assim, pediu?
— Ele não gostava dele. Tinha ciúmes, achava que me atrapalhava, que… que não era adequado eu ter um amigo tão próximo. Então eu deixei as coisas esfriarem. — Minha voz saiu baixa, carregada de culpa. — E percebeu.
Emily cruzou os braços. — Isso não é certo, . Ele isolou você. sempre esteve ao seu lado. Você abriu mão de alguém importante por causa do ego de .
Aquelas palavras doeram, porque eram verdadeiras. Eu baixei os olhos, sem conseguir rebater.
Foi nesse momento que a porta se abriu. entrou, sem nem bater, e nos encarou com o maxilar rígido.
— Então é isso mesmo? — a voz dele veio carregada de ironia. — Você realmente se afastou porque ele pediu?
Meu corpo gelou. — , eu…
— Não, não tenta explicar. — Ele ergueu a mão, cortando minhas palavras. — Você se deixou manipular. Se perdeu por causa dele. — Os olhos dele ardiam de raiva e de algo ainda mais doloroso. — A que eu conhecia nunca teria deixado ninguém decidir quem ela pode ou não ter por perto.
— Não fala assim… — tentei, engolindo em seco.
— Assim como? A verdade? — ele rebateu, dando um passo à frente. — Olha pra você, . Está se moldando a esse cara, deixando ele apagar tudo que te fazia ser você.
Emily ficou em silêncio, olhando a cena como quem sabia que aquilo precisava acontecer.
Meu peito se apertava, dividido entre a culpa e a necessidade de me justificar. Mas não me deu tempo.
— Eu só espero que, quando perceber o quanto se perdeu, ainda sobre alguma coisa de você para recuperar. — Ele disse as palavras como um soco, e antes que eu respondesse, já tinha virado as costas para sair.
Fiquei ali, imóvel, sentindo o coração bater como se tentasse arrebentar minhas costelas. Quando ele saiu, Emily tentou voltar ao assunto da rainha:
— … — disse ela, — …isso é óbvio.
— Óbvio? — repeti, meio irritada. — Como assim “óbvio”?
— Você está namorando um príncipe. Da realeza britânica. Você acha que não existe um manual não escrito para o que eles esperam da parceira dele?
Cruzei os braços.
— Não achei que fosse tão… explícito.
— E você acha que vai ser diferente? Olha só, lembra da “princesa atriz”? — ela fez aspas com os dedos. — O dia em que se casou, adeus Hollywood. Você acha que eles vão deixar a “princesa cantora” continuar fazendo turnês e gravando clipes dançando no palco?
Engoli seco.
— Eu nunca falei que queria largar a música.
— Pois é. E eles também nunca vão falar diretamente que querem que você largue. Eles vão “sugerir”, “guiar”, “moldar”… até que você mesma comece a achar que foi sua escolha.
Olhei para a caneca à minha frente, sentindo o peso das palavras dela.
— E a história dos pais dele? — ela continuou. — Aquilo também é público. O pai dele aprontava e a mãe dele sorria para as câmeras. Você acha que o palácio quer repetir o escândalo? Não, eles vão usar você como selo de qualidade.
— Então você acha que eu estou sendo… usada? — perguntei, mais para mim mesma do que para ela.
Emily não hesitou.
— Eu acho que, nesse mundo, todo mundo está usando todo mundo. A diferença é que você tem que decidir se vale a pena.
Ela deu um gole no café, sem desviar os olhos de mim.
— Só não esquece, : você já tem nome, já tem carreira, já tem dinheiro. No primeiro sinal de que estão tentando apagar quem você é, saia. Porque eles não vão parar.
E, naquele momento, percebi que, por mais duro que fosse ouvir, Emily e eram as únicas pessoas que me falavam sem açúcar — e talvez fosse exatamente disso que eu precisava.
— Ela falou como se minha vida já estivesse decidida — resumi, passando as mãos pelo rosto. — Que eu deveria ser quem equilibra , que eu preciso dar herdeiros, que é minha função mantê-lo no eixo. Como se eu fosse uma peça que encaixa no quebra-cabeça dele.
Emily arqueou as sobrancelhas. — Uau. É pesado.
— Pesado não, sufocante — corrigi. — Ela fala como se eu tivesse sido contratada para cuidar dele, como se eu fosse babá de homem adulto.
Emily suspirou, mas não tentou me consolar com clichês. Era algo que eu gostava nela: sempre dizia a verdade nua e crua.
— , vou ser bem sincera: se você ficar nessa, vai acabar esquecendo quem você é. Você sempre foi muito mais que o “apoio” de alguém.
Hesitei antes de abrir a parte que mais me queimava por dentro. — Eu também me afastei do … porque pediu.
Emily piscou, surpresa. — Como assim, pediu?
— Ele não gostava dele. Tinha ciúmes, achava que me atrapalhava, que… que não era adequado eu ter um amigo tão próximo. Então eu deixei as coisas esfriarem. — Minha voz saiu baixa, carregada de culpa. — E percebeu.
Emily cruzou os braços. — Isso não é certo, . Ele isolou você. sempre esteve ao seu lado. Você abriu mão de alguém importante por causa do ego de .
Aquelas palavras doeram, porque eram verdadeiras. Eu baixei os olhos, sem conseguir rebater.
Foi nesse momento que a porta se abriu. entrou, sem nem bater, e nos encarou com o maxilar rígido.
— Então é isso mesmo? — a voz dele veio carregada de ironia. — Você realmente se afastou porque ele pediu?
Meu corpo gelou. — , eu…
— Não, não tenta explicar. — Ele ergueu a mão, cortando minhas palavras. — Você se deixou manipular. Se perdeu por causa dele. — Os olhos dele ardiam de raiva e de algo ainda mais doloroso. — A que eu conhecia nunca teria deixado ninguém decidir quem ela pode ou não ter por perto.
— Não fala assim… — tentei, engolindo em seco.
— Assim como? A verdade? — ele rebateu, dando um passo à frente. — Olha pra você, . Está se moldando a esse cara, deixando ele apagar tudo que te fazia ser você.
Emily ficou em silêncio, olhando a cena como quem sabia que aquilo precisava acontecer.
Meu peito se apertava, dividido entre a culpa e a necessidade de me justificar. Mas não me deu tempo.
— Eu só espero que, quando perceber o quanto se perdeu, ainda sobre alguma coisa de você para recuperar. — Ele disse as palavras como um soco, e antes que eu respondesse, já tinha virado as costas para sair.
Fiquei ali, imóvel, sentindo o coração bater como se tentasse arrebentar minhas costelas. Quando ele saiu, Emily tentou voltar ao assunto da rainha:
— … — disse ela, — …isso é óbvio.
— Óbvio? — repeti, meio irritada. — Como assim “óbvio”?
— Você está namorando um príncipe. Da realeza britânica. Você acha que não existe um manual não escrito para o que eles esperam da parceira dele?
Cruzei os braços.
— Não achei que fosse tão… explícito.
— E você acha que vai ser diferente? Olha só, lembra da “princesa atriz”? — ela fez aspas com os dedos. — O dia em que se casou, adeus Hollywood. Você acha que eles vão deixar a “princesa cantora” continuar fazendo turnês e gravando clipes dançando no palco?
Engoli seco.
— Eu nunca falei que queria largar a música.
— Pois é. E eles também nunca vão falar diretamente que querem que você largue. Eles vão “sugerir”, “guiar”, “moldar”… até que você mesma comece a achar que foi sua escolha.
Olhei para a caneca à minha frente, sentindo o peso das palavras dela.
— E a história dos pais dele? — ela continuou. — Aquilo também é público. O pai dele aprontava e a mãe dele sorria para as câmeras. Você acha que o palácio quer repetir o escândalo? Não, eles vão usar você como selo de qualidade.
— Então você acha que eu estou sendo… usada? — perguntei, mais para mim mesma do que para ela.
Emily não hesitou.
— Eu acho que, nesse mundo, todo mundo está usando todo mundo. A diferença é que você tem que decidir se vale a pena.
Ela deu um gole no café, sem desviar os olhos de mim.
— Só não esquece, : você já tem nome, já tem carreira, já tem dinheiro. No primeiro sinal de que estão tentando apagar quem você é, saia. Porque eles não vão parar.
E, naquele momento, percebi que, por mais duro que fosse ouvir, Emily e eram as únicas pessoas que me falavam sem açúcar — e talvez fosse exatamente disso que eu precisava.
Capítulo 06
O show tinha sido dela. brilhou. Soltou a voz como nunca antes, dançou, sorriu, fez a plateia delirar. A música falava sobre ser livre, sobre ser mulher e poderosa — e, diante das luzes, ela parecia exatamente isso. Mas por dentro, quando as cortinas fecharam, sentia-se o oposto.
A terceira vez que ele gritou não veio como um susto. Veio como uma navalha.
havia assistido a tudo. Ficou de canto, parado, mas o sangue ferveu em silêncio. Esperou ela se virar, ainda ofegante, para cuspir as palavras com veneno na voz:
— Você adora se exibir, né? Toda carente, cheia de sorrisos… E depois se faz de vítima quando todo mundo tá atrás de você.
parou. O coração disparou, mas não pelo show. Olhou para ele sem entender, sem saber o que tinha feito de errado. Não houve tempo de resposta. O aperto veio no pulso dela, forte, intencional, como se quisesse marcá-la com um lembrete: ela era dele.
O mundo girou devagar.
apareceu do outro lado do corredor. O olhar dele caiu direto na mão de cravada no braço dela. O instante congelou em silêncio, desses que carregam a tempestade no ar.
Ele atravessou o espaço sem pensar. Foi rápido, feroz, um raio. Segurou pela gola e arrancou a mão dele de cima dela. Empurrou-o contra a parede com força suficiente para fazer os quadros tremerem. O corredor inteiro prendeu a respiração.
— Encosta nela de novo e eu te arrebento.
riu. A risada sarcástica que já conhecia, que vinha sempre quando ele queria bancar o superior.
— E você? Vai fingir que não é apaixonado por ela há anos?
não recuou. O maxilar travado, os dedos ainda apertando o tecido da camisa.
— E o que mudaria se eu fosse?
O silêncio pesou. sentiu o coração martelar na garganta.
— Hein? — avançou, voz mais grave, olhar cravado em . — Que diferença faria? Você já a trata como se fosse tua propriedade. Como se ela não tivesse escolha. Como se pudesse machucá-la e ainda exigir amor em troca. Sabe o que me dá nojo? — ele cuspiu as palavras. — Ver você usar o trauma dela como desculpa pra continuar sendo um covarde.
empalideceu. , por um instante, perdeu o chão.
— Você não sabe de nada — retrucou, a voz falhando, os olhos marejados. — Você acha que entende ela? Que entende o que a gente passou? Ela nunca te escolheu, . Nunca!
Então olhou para ela.
Foi rápido. Um segundo. Mas naquele segundo ela viu tudo. Dor. Medo. Esperança.
E congelou.
Não disse nada. Não estendeu a mão.
O silêncio dela foi a resposta mais cruel de todas.
largou como se o contato queimasse. Passou por sem encará-la. Saiu com passos duros, levando consigo algo que ela nunca teria de volta.
E ela ficou.
Ficou porque chorava agora, tremia, dizia que estava quebrado. Que não sabia amar, que só fazia aquilo porque amava demais. Porque não aguentava perdê-la. Porque ela era tudo o que ele tinha. Porque só ela podia entendê-lo.
E acreditou. Burra de amor. Burra de culpa. E também porque a imprensa nunca poderia saber.
era forte, não era? sempre aguentava. Sempre soube seguir em frente.
Ela só não sabia se, depois daquela noite, ele ainda estaria lá.
Alguns meses depois…
A noite do jogo.
O time dele estava invicto havia semanas, e ela queria fazer algo especial. Algo que dissesse: "eu ainda tô aqui por você". Vestiu um uniforme improvisado de líder de torcida, uma referência boba às piadas internas que os dois compartilhavam desde o ensino médio. Naquela época, era impossível ver um sem o outro. Trocavam mensagens até de madrugada, sabiam o que o outro sentia só de um olhar. E mesmo depois de tudo, parte dela ainda queria acreditar que aquela conexão não tinha morrido.
Quando entrou em quadra naquela noite, ela vibrou como se ainda fosse a melhor amiga dele. Como se não existisse. Como se não tivesse passado os últimos meses tentando justificar para si mesma porque tinha se afastado, por que doía tanto vê-lo ignorar sua existência.
E então ele marcou o ponto da vitória. A torcida explodiu. Casais se beijavam, os amigos se abraçavam. Ela correu para a quadra, sorrindo como há tempos não sorria, sentindo uma alegria genuína só por vê-lo vencer.
Mas não sorriu ao vê-la.
— O que você tá fazendo aqui? — ele perguntou, ofegante, o suor escorrendo pela testa, mas os olhos congelados.
Ela travou. O sorriso sumiu.
— Eu... vim te ver jogar. Quis te animar.
Ele riu. Não aquele riso dele que ela amava, meio rouco, meio debochado. Foi um riso frio, quase amargo.
— Animar? De onde tirou isso? Não devia estar com o ? Coladinha nele como sempre, fingindo que tá tudo certo?
— …
— Eu cansei, . — Ele cortou, os olhos brilhando, mas não de felicidade. — Você sabe quem ele é. Sabe o que ele te faz. Eu vi. Eu senti no estômago aquele dia… quando ele apertou seu pulso. Quando você fingiu que tava tudo bem depois.
Ela estremeceu. Até hoje lembrava do jeito que ele tinha tirado a mão de com força e dado um soco tão seco que todo mundo parou. Tinha sido uma confusão, mas nunca se arrependeu. E ela… ela não agradeceu. Nem pediu desculpas.
— Eu só…
— Não. Você escolheu ele. Sempre escolhe ele. — A voz dele tremia agora. — Eu não posso mais ver você se machucar e fingir que é só uma fase. Não posso ser seu amigo se isso significa assistir você sumir em alguém que te apaga.
Ele parou, olhando pra ela como se não a reconhecesse mais.
— Eu te amo, . — Foi um sussurro. Quase um desabafo. E ela congelou. — E é por isso que eu não posso mais te ver. Porque te ver assim… me mata por dentro.
Ela quis responder. Quis implorar para ele ficar, pra explicar que tudo era mais difícil do que parecia, que ela também estava presa. Mas ele já estava indo embora. No meio da quadra, da comemoração, das luzes — como se ela fosse o único silêncio em meio à festa.
Naquela noite, chorou no carro, o uniforme amassado, a maquiagem borrada, o peito vazio. Não foi por . Foi por . Por aquele "eu te amo" tardio. Pela distância que ela tinha criado. Por tudo que perderam sem sequer terem tentado.
E agora, dois anos depois, ali estava ela, estacionando em frente à casa dele. Com as mãos suando e a garganta apertada. Porque, apesar do tempo, as palavras dele ainda ecoavam. Porque, no fundo, ela nunca deixou de amar . E talvez, só talvez… ainda houvesse tempo para consertar.
Mas isso, só ele poderia decidir.
A terceira vez que ele gritou não veio como um susto. Veio como uma navalha.
havia assistido a tudo. Ficou de canto, parado, mas o sangue ferveu em silêncio. Esperou ela se virar, ainda ofegante, para cuspir as palavras com veneno na voz:
— Você adora se exibir, né? Toda carente, cheia de sorrisos… E depois se faz de vítima quando todo mundo tá atrás de você.
parou. O coração disparou, mas não pelo show. Olhou para ele sem entender, sem saber o que tinha feito de errado. Não houve tempo de resposta. O aperto veio no pulso dela, forte, intencional, como se quisesse marcá-la com um lembrete: ela era dele.
O mundo girou devagar.
apareceu do outro lado do corredor. O olhar dele caiu direto na mão de cravada no braço dela. O instante congelou em silêncio, desses que carregam a tempestade no ar.
Ele atravessou o espaço sem pensar. Foi rápido, feroz, um raio. Segurou pela gola e arrancou a mão dele de cima dela. Empurrou-o contra a parede com força suficiente para fazer os quadros tremerem. O corredor inteiro prendeu a respiração.
— Encosta nela de novo e eu te arrebento.
riu. A risada sarcástica que já conhecia, que vinha sempre quando ele queria bancar o superior.
— E você? Vai fingir que não é apaixonado por ela há anos?
não recuou. O maxilar travado, os dedos ainda apertando o tecido da camisa.
— E o que mudaria se eu fosse?
O silêncio pesou. sentiu o coração martelar na garganta.
— Hein? — avançou, voz mais grave, olhar cravado em . — Que diferença faria? Você já a trata como se fosse tua propriedade. Como se ela não tivesse escolha. Como se pudesse machucá-la e ainda exigir amor em troca. Sabe o que me dá nojo? — ele cuspiu as palavras. — Ver você usar o trauma dela como desculpa pra continuar sendo um covarde.
empalideceu. , por um instante, perdeu o chão.
— Você não sabe de nada — retrucou, a voz falhando, os olhos marejados. — Você acha que entende ela? Que entende o que a gente passou? Ela nunca te escolheu, . Nunca!
Então olhou para ela.
Foi rápido. Um segundo. Mas naquele segundo ela viu tudo. Dor. Medo. Esperança.
E congelou.
Não disse nada. Não estendeu a mão.
O silêncio dela foi a resposta mais cruel de todas.
largou como se o contato queimasse. Passou por sem encará-la. Saiu com passos duros, levando consigo algo que ela nunca teria de volta.
E ela ficou.
Ficou porque chorava agora, tremia, dizia que estava quebrado. Que não sabia amar, que só fazia aquilo porque amava demais. Porque não aguentava perdê-la. Porque ela era tudo o que ele tinha. Porque só ela podia entendê-lo.
E acreditou. Burra de amor. Burra de culpa. E também porque a imprensa nunca poderia saber.
era forte, não era? sempre aguentava. Sempre soube seguir em frente.
Ela só não sabia se, depois daquela noite, ele ainda estaria lá.
Alguns meses depois…
A noite do jogo.
O time dele estava invicto havia semanas, e ela queria fazer algo especial. Algo que dissesse: "eu ainda tô aqui por você". Vestiu um uniforme improvisado de líder de torcida, uma referência boba às piadas internas que os dois compartilhavam desde o ensino médio. Naquela época, era impossível ver um sem o outro. Trocavam mensagens até de madrugada, sabiam o que o outro sentia só de um olhar. E mesmo depois de tudo, parte dela ainda queria acreditar que aquela conexão não tinha morrido.
Quando entrou em quadra naquela noite, ela vibrou como se ainda fosse a melhor amiga dele. Como se não existisse. Como se não tivesse passado os últimos meses tentando justificar para si mesma porque tinha se afastado, por que doía tanto vê-lo ignorar sua existência.
E então ele marcou o ponto da vitória. A torcida explodiu. Casais se beijavam, os amigos se abraçavam. Ela correu para a quadra, sorrindo como há tempos não sorria, sentindo uma alegria genuína só por vê-lo vencer.
Mas não sorriu ao vê-la.
— O que você tá fazendo aqui? — ele perguntou, ofegante, o suor escorrendo pela testa, mas os olhos congelados.
Ela travou. O sorriso sumiu.
— Eu... vim te ver jogar. Quis te animar.
Ele riu. Não aquele riso dele que ela amava, meio rouco, meio debochado. Foi um riso frio, quase amargo.
— Animar? De onde tirou isso? Não devia estar com o ? Coladinha nele como sempre, fingindo que tá tudo certo?
— …
— Eu cansei, . — Ele cortou, os olhos brilhando, mas não de felicidade. — Você sabe quem ele é. Sabe o que ele te faz. Eu vi. Eu senti no estômago aquele dia… quando ele apertou seu pulso. Quando você fingiu que tava tudo bem depois.
Ela estremeceu. Até hoje lembrava do jeito que ele tinha tirado a mão de com força e dado um soco tão seco que todo mundo parou. Tinha sido uma confusão, mas nunca se arrependeu. E ela… ela não agradeceu. Nem pediu desculpas.
— Eu só…
— Não. Você escolheu ele. Sempre escolhe ele. — A voz dele tremia agora. — Eu não posso mais ver você se machucar e fingir que é só uma fase. Não posso ser seu amigo se isso significa assistir você sumir em alguém que te apaga.
Ele parou, olhando pra ela como se não a reconhecesse mais.
— Eu te amo, . — Foi um sussurro. Quase um desabafo. E ela congelou. — E é por isso que eu não posso mais te ver. Porque te ver assim… me mata por dentro.
Ela quis responder. Quis implorar para ele ficar, pra explicar que tudo era mais difícil do que parecia, que ela também estava presa. Mas ele já estava indo embora. No meio da quadra, da comemoração, das luzes — como se ela fosse o único silêncio em meio à festa.
Naquela noite, chorou no carro, o uniforme amassado, a maquiagem borrada, o peito vazio. Não foi por . Foi por . Por aquele "eu te amo" tardio. Pela distância que ela tinha criado. Por tudo que perderam sem sequer terem tentado.
E agora, dois anos depois, ali estava ela, estacionando em frente à casa dele. Com as mãos suando e a garganta apertada. Porque, apesar do tempo, as palavras dele ainda ecoavam. Porque, no fundo, ela nunca deixou de amar . E talvez, só talvez… ainda houvesse tempo para consertar.
Mas isso, só ele poderia decidir.
Capítulo 07
Um ano.
Exatamente um ano desde que pisei pela primeira vez nos salões dourados para cantar no aniversário de 17 anos de . Naquele dia, ele estava radiante — olhos presos em mim, sorriso fácil, como se o resto do mundo não importasse. Eu ainda lembro da forma como ele me segurou a mão no final, como se não quisesse me deixar ir. Como depois da gente dançar ele me guiou até seu quarto e me fez a mulher mais feliz do mundo.
Agora, doze meses depois de começarmos a namorar, estava de volta para o mesmo evento. Mas o clima era outro.
O salão estava impecável, as mesas enfeitadas com arranjos de flores brancas, os lustres refletindo luzes douradas sobre os convidados. A família real estava toda presente, com seus sorrisos protocolares e conversas medidas. Eu usava um vestido escolhido pela estilista do palácio — bonito, mas não o meu.
Subi ao palco para cantar, como no ano anterior. A música saiu perfeita, os aplausos foram calorosos. Mas enquanto eu cantava, os olhos de não estavam fixos em mim como antes. Ele parecia distraído, conversando com um primo, mexendo no celular. O encantamento de antes tinha se tornado… hábito.
Depois da minha apresentação, nos sentamos juntos. Ele foi gentil, educado, até carinhoso em alguns momentos, mas tudo com um ar superficial. O olhar dele passava por mim, mas não ficava.
Perto da meia-noite, se inclinou para me dizer, num tom quase cúmplice:
— Preciso resolver umas coisas, mas a gente se vê amanhã, tá?
Foi um beijo rápido, um sorriso e… ele se foi. O motorista me levou de volta, e o resto da noite ficou em branco para mim.
Só no dia seguinte entendi para onde ele tinha ido.
As fotos e vídeos estavam por toda parte: em uma outra festa, bem diferente da que eu tinha ido. Sem protocolos, sem família, só amigos, bebida, música alta… e mulheres. Muitas mulheres. Algumas ao lado dele, rindo de algo que ele dizia, outras dançando perto demais para serem apenas conhecidas.
A internet estava em chamas. Manchetes insinuavam que ele “se soltou” depois da festa oficial. Vídeos mostravam ele bebendo, abraçando, rindo como eu não via há meses.
O contraste me atingiu como um soco.
No ano passado, eu era o centro da noite dele.
Agora, eu era apenas a atração da primeira parte.
A segunda — a verdadeira — eu nem fui convidada para assistir.
Narrado por
Quando a festa oficial terminou, senti o ar pesado de etiqueta e discursos se dissipar dos meus ombros. A sala de jantar ainda cheirava a vinho caro e flores recém-cortadas, mas tudo ali parecia ensaiado demais. Até eu.
Despedi-me de com um beijo rápido. Ela estava linda — impecável, como sempre — mas, naquela hora, parecia fazer parte do mesmo cenário polido do resto da noite. Eu sabia que ela esperava que eu fosse para casa. Não fui.
O carro me deixou em outro endereço, longe dos olhares da família. Lá dentro, a música era alta, abafada pelo som das risadas e do gelo batendo nos copos. Amigos de longa data me receberam como se eu tivesse acabado de voltar de uma guerra. E, por alguns minutos, me senti vivo de novo.
Não havia fotógrafos oficiais, nem assessores me lembrando de como segurar o copo. Ninguém se importava se eu ria alto demais ou se abraçava quem eu quisesse.
As horas passaram entre brindes, conversas soltas e danças que eu não poderia ter em um salão real. Algumas mulheres que eu conhecia de outras festas se aproximaram. Outras, eu não fazia ideia de quem eram, mas a confiança com que me tocavam o braço ou sussurravam algo no ouvido era a mesma. Eu não as afastei.
Quando voltei para casa, o sol já ameaçava nascer. Joguei o casaco sobre uma poltrona e dormi sem pensar muito.
Até acordar no dia seguinte.
O celular vibrava sem parar. Manchetes, fotos, vídeos — todos mostrando exatamente o que aconteceu, mas com legendas feitas para incendiar ainda mais. Imagens de mim bebendo, rindo, abraçando. Close em mãos femininas no meu ombro.
Senti o peso no estômago, não pelo que fiz, mas pelo que sabia que viria depois. veria tudo. E, no fundo, eu não tinha certeza se ela ficaria mais magoada pelo que aconteceu… ou por eu nem ter tentado esconder.
Narrado por
Já tinham me contado todas as histórias. Os boatos, as críticas, os alertas. E, para ser justa, eu mesma já tinha sentido alguns daqueles presságios no estômago — aquela sensação de que algo estava fora do lugar. Mas, mesmo assim, escolhi ficar. Escolhi estar com .
Talvez porque passei tempo demais sozinha. Talvez porque queria provar para mim mesma que ainda sabia amar, mesmo quando tudo gritava para eu correr. Se eu fechasse um olho, até conseguia fingir que aquelas bandeiras vermelhas eram azuis.
E lá estava ele, naquela festa paralela, como se a parte da noite que me incluía fosse apenas um aquecimento. Rindo, bebendo, abraçando mulheres que ele mal conhecia. E eu? Eu estava em casa, ainda com o vestido escolhido pela equipe dele, sentindo o perfume que já não tinha nada a ver comigo.
Quando ele apareceu no dia seguinte, fingindo normalidade, eu percebi o quanto já estava me anestesiando para sobreviver nesse relacionamento. Era como se a gente tivesse assinado um pacto silencioso: ele podia agir como quisesse, e eu fingia que não via — até não aguentar mais.
— Não é nada demais, . — Ele disse, olhando para as fotos no meu celular com aquele ar de quem já se defendeu mil vezes.
— Nada demais? — minha voz saiu fria. — Você me despede da sua festa, vai para outra cheia de mulheres e acha que é “nada demais”?
Ele deu de ombros, como se o mundo todo fosse drama, menos ele. E foi nesse instante que entendi: era ciumento, possessivo, manipulador… mas com uma habilidade quase impressionante de me fazer participar desse jogo. Ele fazia e desfazia regras, movia peças dentro de mim como se meu coração fosse o tabuleiro dele.
E a parte mais doente? Eu sabia que aquilo era tóxico desde o início. Eu não estava no escuro. Eu só não queria acender a luz e confirmar. Até Emily sabia e eu não escutei.
Mas naquele dia, enquanto ele tentava transformar minha dor em exagero, algo se quebrou de vez. Ele já tinha me roubado noites, paz e confiança. Não ia roubar também meus melhores anos.
estava jogado no sofá, como se nada daquilo importasse. Como se fosse só mais uma briga. Mas não era.
— Sabe qual é o seu problema, ? — perguntei, sem esperar resposta. — Você acha que pode fazer qualquer coisa porque as pessoas vão te amar de qualquer jeito. Mas a verdade é que ninguém te ama de verdade.
Ele franziu o cenho, como se eu tivesse acabado de insultar a cor do céu.
— Como assim ninguém me ama? — disse, indignado.
— Porque a sua vida é de mentira — continuei. — É fachada, é protocolo, é imagem. Tudo montado para parecer perfeito. Você não sabe ser real com ninguém. Nem comigo.
Ele abriu a boca para responder, mas eu ergui a mão, cortando. — E não é só por causa dessa maldita festa. Faz meses que eu sei que você não está só comigo.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Ele desviou o olhar, mexendo nos dedos como se pudesse esconder a reação.
— , não começa…
— Não começa? — ri, amarga. — Eu sei dos encontros, das mensagens, das “amizades” que todo mundo finge não ver. Sei que não foi só uma, nem duas… foram muitas.
Ele me olhou, talvez esperando que eu chorasse, que implorasse por alguma explicação. Mas não havia mais lágrimas.
— Eu não preciso disso, . Não preciso ficar me perguntando onde você está, com quem está, ou quantas mentiras você vai contar para salvar sua própria imagem. Eu não estou aqui para completar ninguém, para salvar ninguém, ou para apagar escândalos.
Ele se recostou, respirando fundo, como se tentasse manter o controle.
— Então é isso? Você vai jogar tudo fora por causa de boatos?
— Boatos? — repeti, quase rindo. — Você confunde boato com padrão. E eu já cansei.
Me levantei, peguei minha bolsa e fui até a porta.
— Eu quero estar em paz, . E eu vou estar. Sem você.
Ele ainda estava ali, me olhando como se pudesse me convencer com os olhos. Mas já não havia mais espaço para dúvida dentro de mim.
— Quer saber a parte mais irônica, ? — falei, olhando direto pra ele. — Todo mundo me avisou. A Emily me avisou. . Até a imprensa, que distorce tudo, acertou dessa vez. Eu é que insisti em acreditar.
O nome dele saiu da minha boca e, na hora, os olhos de se estreitaram. Ele riu, mas não era humor, era veneno.
— Ah, claro. O . Sempre ele. Você adora jogar ele no meio, não é? Aposto que é isso, não consegue largar dele. Aposto que foi ele que envenenou você contra mim.
Minha raiva explodiu.
— Cuidado com o que você fala do . — minha voz saiu firme, cortante. — Ele não precisou envenenar nada, porque você fez tudo sozinho. Você acha que o mundo gira ao seu redor, , mas a verdade é que você só coleciona gente que cansa de você.
Ele se levantou, o rosto vermelho, tentando virar o jogo.
— Ele sempre quis você, . Desde o começo. É óbvio! Não é coincidência que ele vive aparecendo quando a gente briga.
— Não ousa colocar a culpa nele pelas tuas merdas! — gritei, e minha voz ecoou pelo quarto. — é a única pessoa que nunca tentou me manipular, que nunca mentiu na minha cara, que nunca me fez sentir pequena. Ele não precisa se aproveitar de nada, porque diferente de você, ele sabe respeitar alguém.
bufou, sem graça, sem argumento.
— Você tá cega, . Esse cara quer acabar com a gente.
— A gente já acabou faz tempo, ! — respondi sem hesitar. — Não foi o , não foi a Emily, não foi ninguém. Foi você. E agora você tá desesperado porque não tem mais desculpa pra se esconder atrás.
Ele tentou abrir a boca de novo, mas eu já não queria ouvir.
— Chega. Eu tô farta das tuas mentiras, das tuas traições, desse teatrinho de príncipe encantado quando, na real, você não passa de um garoto mimado que não sabe lidar com “não”.
A sala ficou em silêncio, pesado. Ele não conseguiu me responder. E pela primeira vez, eu não me importei com o que ele iria dizer depois.
Ele balançou a cabeça, impaciente.
— Você está exagerando…
— Não, eu não estou. — o cortei. — Eu sempre ouvi que eu era demais para você. Que você precisava de alguém passiva, sem opinião própria, sem coragem de se impor. Uma pessoa que aceitaria se mudar, mudar de roupa, mudar de vida inteira só para se encaixar no que o seu mundo exige.
Ele ficou em silêncio.
— E eu disse, desde o começo, que no dia em que eu não me sentisse confortável nisso, eu pularia fora. — dei um passo para trás, para deixar claro que estava séria. — Esse dia chegou, .
— … — ele começou, a voz mais baixa, quase um pedido.
— … eu já vi essa história milhões de vezes — falei, cruzando os braços. — Mulheres largando tudo, mudando tudo, se moldando para caber num espaço que nunca foi feito para elas. Sempre se abaixando, encolhendo, para caber. E sabe o que acontece? Elas acabam infelizes. Sempre.
Ele respirou fundo, quase como se estivesse tentando encontrar um argumento para me prender ali.
— Você está dizendo que eu nunca tentei? — perguntou.
— Não é sobre tentar — respondi, firme. — É sobre o fato de que, para ficar com você, eu teria que abrir mão de quem eu sou. E eu não vou fazer isso. Eu não vou me abaixar para caber, .
Ele desviou o olhar, e eu aproveitei para continuar.
— E também não posso, nem quero, pedir para você deixar a fila do trono. Não é justo. Essa é a sua vida. Mas a minha é outra. E elas simplesmente não se encaixam.
Ele se levantou, deu dois passos na minha direção, com aquele olhar que antes me desmontava.
— A gente não deve ficar junto. — continuei, sem tremer. — Talvez em outra vida. Talvez quando você crescer emocionalmente e entender que amar alguém não é só sobre manter aparência. Mas, por enquanto… eu te desejo felicidade.
— Não vai. — disse, e pela primeira vez a voz dele soou desesperada. — Por favor, não vai.
Respirei fundo, e doeu mais do que eu esperava.
— Eu não iria… se você não tivesse feito merda. — respondi, simples, sem gritar. — Mas você fez.
E, sem esperar que ele dissesse mais nada, peguei minhas coisas e fui embora. Com cada passo, senti que estava deixando para trás não só , mas todo o peso que ele trouxe para minha vida. Fechei a porta atrás de mim, sentindo um alívio que, por meses, parecia impossível. E, pela primeira vez em muito tempo, percebi que estava livre.
O convite chegou como tudo vindo da família real: elegante, calculado e impossível de recusar sem causar barulho. Uma carta breve, pedindo que eu fosse “conversar” no palácio. Não diziam sobre o quê, mas eu já sabia.
Quando cheguei, fui conduzida até uma sala menor — menor para padrões do palácio, ainda assim com teto alto, cortinas pesadas e uma lareira acesa, mesmo que o dia não estivesse tão frio.
Estavam lá dois dos tios de e uma assessora de confiança da rainha. Todos sorrindo de forma contida, como se aquele fosse apenas um encontro cordial.
— — começou um dos tios, cruzando as mãos sobre o joelho —, antes de mais nada, queremos dizer que… sentimos muito pelo que aconteceu.
A assessora completou:
— Foi um erro. está profundamente arrependido.
Permaneci calada, apenas observando.
— Você é a única que consegue mantê-lo firme, — disse o outro tio. — Desde que começaram a namorar, ele mudou. Para melhor.
As palavras eram ensaiadas, quase como se lessem de um roteiro.
— O que aconteceu… — a assessora escolheu cada palavra com cuidado — foi um deslize. E precisamos que você considere seguir em frente. precisa de você.
Não era sobre sentimentos, eu percebi. Era sobre necessidade. Sobre manter as coisas “controladas”.
— Ele está vulnerável agora — acrescentou o primeiro tio. — Se você se afastar, a imprensa vai atacar, e… bom, você sabe como isso pode acabar.
Senti um nó subir na garganta, mas não de emoção. Era raiva. Ali, pela primeira vez, entendi completamente: para eles, eu não era só a namorada dele. Eu era uma peça no jogo. Um peão que eles podiam mover para proteger o rei.
Mantive o tom educado.
— Eu entendo o que estão dizendo.
E entendi mesmo. Só que o que eles queriam não era que eu amasse — era que eu segurasse a versão dele que dava menos trabalho ao palácio.
Saí dali com um gosto amargo na boca. Porque, naquele tabuleiro, não importava como eu me sentia. Só importava que eu cumprisse o papel.
Exatamente um ano desde que pisei pela primeira vez nos salões dourados para cantar no aniversário de 17 anos de . Naquele dia, ele estava radiante — olhos presos em mim, sorriso fácil, como se o resto do mundo não importasse. Eu ainda lembro da forma como ele me segurou a mão no final, como se não quisesse me deixar ir. Como depois da gente dançar ele me guiou até seu quarto e me fez a mulher mais feliz do mundo.
Agora, doze meses depois de começarmos a namorar, estava de volta para o mesmo evento. Mas o clima era outro.
O salão estava impecável, as mesas enfeitadas com arranjos de flores brancas, os lustres refletindo luzes douradas sobre os convidados. A família real estava toda presente, com seus sorrisos protocolares e conversas medidas. Eu usava um vestido escolhido pela estilista do palácio — bonito, mas não o meu.
Subi ao palco para cantar, como no ano anterior. A música saiu perfeita, os aplausos foram calorosos. Mas enquanto eu cantava, os olhos de não estavam fixos em mim como antes. Ele parecia distraído, conversando com um primo, mexendo no celular. O encantamento de antes tinha se tornado… hábito.
Depois da minha apresentação, nos sentamos juntos. Ele foi gentil, educado, até carinhoso em alguns momentos, mas tudo com um ar superficial. O olhar dele passava por mim, mas não ficava.
Perto da meia-noite, se inclinou para me dizer, num tom quase cúmplice:
— Preciso resolver umas coisas, mas a gente se vê amanhã, tá?
Foi um beijo rápido, um sorriso e… ele se foi. O motorista me levou de volta, e o resto da noite ficou em branco para mim.
Só no dia seguinte entendi para onde ele tinha ido.
As fotos e vídeos estavam por toda parte: em uma outra festa, bem diferente da que eu tinha ido. Sem protocolos, sem família, só amigos, bebida, música alta… e mulheres. Muitas mulheres. Algumas ao lado dele, rindo de algo que ele dizia, outras dançando perto demais para serem apenas conhecidas.
A internet estava em chamas. Manchetes insinuavam que ele “se soltou” depois da festa oficial. Vídeos mostravam ele bebendo, abraçando, rindo como eu não via há meses.
O contraste me atingiu como um soco.
No ano passado, eu era o centro da noite dele.
Agora, eu era apenas a atração da primeira parte.
A segunda — a verdadeira — eu nem fui convidada para assistir.
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Quando a festa oficial terminou, senti o ar pesado de etiqueta e discursos se dissipar dos meus ombros. A sala de jantar ainda cheirava a vinho caro e flores recém-cortadas, mas tudo ali parecia ensaiado demais. Até eu.
Despedi-me de com um beijo rápido. Ela estava linda — impecável, como sempre — mas, naquela hora, parecia fazer parte do mesmo cenário polido do resto da noite. Eu sabia que ela esperava que eu fosse para casa. Não fui.
O carro me deixou em outro endereço, longe dos olhares da família. Lá dentro, a música era alta, abafada pelo som das risadas e do gelo batendo nos copos. Amigos de longa data me receberam como se eu tivesse acabado de voltar de uma guerra. E, por alguns minutos, me senti vivo de novo.
Não havia fotógrafos oficiais, nem assessores me lembrando de como segurar o copo. Ninguém se importava se eu ria alto demais ou se abraçava quem eu quisesse.
As horas passaram entre brindes, conversas soltas e danças que eu não poderia ter em um salão real. Algumas mulheres que eu conhecia de outras festas se aproximaram. Outras, eu não fazia ideia de quem eram, mas a confiança com que me tocavam o braço ou sussurravam algo no ouvido era a mesma. Eu não as afastei.
Quando voltei para casa, o sol já ameaçava nascer. Joguei o casaco sobre uma poltrona e dormi sem pensar muito.
Até acordar no dia seguinte.
O celular vibrava sem parar. Manchetes, fotos, vídeos — todos mostrando exatamente o que aconteceu, mas com legendas feitas para incendiar ainda mais. Imagens de mim bebendo, rindo, abraçando. Close em mãos femininas no meu ombro.
Senti o peso no estômago, não pelo que fiz, mas pelo que sabia que viria depois. veria tudo. E, no fundo, eu não tinha certeza se ela ficaria mais magoada pelo que aconteceu… ou por eu nem ter tentado esconder.
Narrado por
Já tinham me contado todas as histórias. Os boatos, as críticas, os alertas. E, para ser justa, eu mesma já tinha sentido alguns daqueles presságios no estômago — aquela sensação de que algo estava fora do lugar. Mas, mesmo assim, escolhi ficar. Escolhi estar com .
Talvez porque passei tempo demais sozinha. Talvez porque queria provar para mim mesma que ainda sabia amar, mesmo quando tudo gritava para eu correr. Se eu fechasse um olho, até conseguia fingir que aquelas bandeiras vermelhas eram azuis.
E lá estava ele, naquela festa paralela, como se a parte da noite que me incluía fosse apenas um aquecimento. Rindo, bebendo, abraçando mulheres que ele mal conhecia. E eu? Eu estava em casa, ainda com o vestido escolhido pela equipe dele, sentindo o perfume que já não tinha nada a ver comigo.
Quando ele apareceu no dia seguinte, fingindo normalidade, eu percebi o quanto já estava me anestesiando para sobreviver nesse relacionamento. Era como se a gente tivesse assinado um pacto silencioso: ele podia agir como quisesse, e eu fingia que não via — até não aguentar mais.
— Não é nada demais, . — Ele disse, olhando para as fotos no meu celular com aquele ar de quem já se defendeu mil vezes.
— Nada demais? — minha voz saiu fria. — Você me despede da sua festa, vai para outra cheia de mulheres e acha que é “nada demais”?
Ele deu de ombros, como se o mundo todo fosse drama, menos ele. E foi nesse instante que entendi: era ciumento, possessivo, manipulador… mas com uma habilidade quase impressionante de me fazer participar desse jogo. Ele fazia e desfazia regras, movia peças dentro de mim como se meu coração fosse o tabuleiro dele.
E a parte mais doente? Eu sabia que aquilo era tóxico desde o início. Eu não estava no escuro. Eu só não queria acender a luz e confirmar. Até Emily sabia e eu não escutei.
Mas naquele dia, enquanto ele tentava transformar minha dor em exagero, algo se quebrou de vez. Ele já tinha me roubado noites, paz e confiança. Não ia roubar também meus melhores anos.
estava jogado no sofá, como se nada daquilo importasse. Como se fosse só mais uma briga. Mas não era.
— Sabe qual é o seu problema, ? — perguntei, sem esperar resposta. — Você acha que pode fazer qualquer coisa porque as pessoas vão te amar de qualquer jeito. Mas a verdade é que ninguém te ama de verdade.
Ele franziu o cenho, como se eu tivesse acabado de insultar a cor do céu.
— Como assim ninguém me ama? — disse, indignado.
— Porque a sua vida é de mentira — continuei. — É fachada, é protocolo, é imagem. Tudo montado para parecer perfeito. Você não sabe ser real com ninguém. Nem comigo.
Ele abriu a boca para responder, mas eu ergui a mão, cortando. — E não é só por causa dessa maldita festa. Faz meses que eu sei que você não está só comigo.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Ele desviou o olhar, mexendo nos dedos como se pudesse esconder a reação.
— , não começa…
— Não começa? — ri, amarga. — Eu sei dos encontros, das mensagens, das “amizades” que todo mundo finge não ver. Sei que não foi só uma, nem duas… foram muitas.
Ele me olhou, talvez esperando que eu chorasse, que implorasse por alguma explicação. Mas não havia mais lágrimas.
— Eu não preciso disso, . Não preciso ficar me perguntando onde você está, com quem está, ou quantas mentiras você vai contar para salvar sua própria imagem. Eu não estou aqui para completar ninguém, para salvar ninguém, ou para apagar escândalos.
Ele se recostou, respirando fundo, como se tentasse manter o controle.
— Então é isso? Você vai jogar tudo fora por causa de boatos?
— Boatos? — repeti, quase rindo. — Você confunde boato com padrão. E eu já cansei.
Me levantei, peguei minha bolsa e fui até a porta.
— Eu quero estar em paz, . E eu vou estar. Sem você.
Ele ainda estava ali, me olhando como se pudesse me convencer com os olhos. Mas já não havia mais espaço para dúvida dentro de mim.
— Quer saber a parte mais irônica, ? — falei, olhando direto pra ele. — Todo mundo me avisou. A Emily me avisou. . Até a imprensa, que distorce tudo, acertou dessa vez. Eu é que insisti em acreditar.
O nome dele saiu da minha boca e, na hora, os olhos de se estreitaram. Ele riu, mas não era humor, era veneno.
— Ah, claro. O . Sempre ele. Você adora jogar ele no meio, não é? Aposto que é isso, não consegue largar dele. Aposto que foi ele que envenenou você contra mim.
Minha raiva explodiu.
— Cuidado com o que você fala do . — minha voz saiu firme, cortante. — Ele não precisou envenenar nada, porque você fez tudo sozinho. Você acha que o mundo gira ao seu redor, , mas a verdade é que você só coleciona gente que cansa de você.
Ele se levantou, o rosto vermelho, tentando virar o jogo.
— Ele sempre quis você, . Desde o começo. É óbvio! Não é coincidência que ele vive aparecendo quando a gente briga.
— Não ousa colocar a culpa nele pelas tuas merdas! — gritei, e minha voz ecoou pelo quarto. — é a única pessoa que nunca tentou me manipular, que nunca mentiu na minha cara, que nunca me fez sentir pequena. Ele não precisa se aproveitar de nada, porque diferente de você, ele sabe respeitar alguém.
bufou, sem graça, sem argumento.
— Você tá cega, . Esse cara quer acabar com a gente.
— A gente já acabou faz tempo, ! — respondi sem hesitar. — Não foi o , não foi a Emily, não foi ninguém. Foi você. E agora você tá desesperado porque não tem mais desculpa pra se esconder atrás.
Ele tentou abrir a boca de novo, mas eu já não queria ouvir.
— Chega. Eu tô farta das tuas mentiras, das tuas traições, desse teatrinho de príncipe encantado quando, na real, você não passa de um garoto mimado que não sabe lidar com “não”.
A sala ficou em silêncio, pesado. Ele não conseguiu me responder. E pela primeira vez, eu não me importei com o que ele iria dizer depois.
Ele balançou a cabeça, impaciente.
— Você está exagerando…
— Não, eu não estou. — o cortei. — Eu sempre ouvi que eu era demais para você. Que você precisava de alguém passiva, sem opinião própria, sem coragem de se impor. Uma pessoa que aceitaria se mudar, mudar de roupa, mudar de vida inteira só para se encaixar no que o seu mundo exige.
Ele ficou em silêncio.
— E eu disse, desde o começo, que no dia em que eu não me sentisse confortável nisso, eu pularia fora. — dei um passo para trás, para deixar claro que estava séria. — Esse dia chegou, .
— … — ele começou, a voz mais baixa, quase um pedido.
— … eu já vi essa história milhões de vezes — falei, cruzando os braços. — Mulheres largando tudo, mudando tudo, se moldando para caber num espaço que nunca foi feito para elas. Sempre se abaixando, encolhendo, para caber. E sabe o que acontece? Elas acabam infelizes. Sempre.
Ele respirou fundo, quase como se estivesse tentando encontrar um argumento para me prender ali.
— Você está dizendo que eu nunca tentei? — perguntou.
— Não é sobre tentar — respondi, firme. — É sobre o fato de que, para ficar com você, eu teria que abrir mão de quem eu sou. E eu não vou fazer isso. Eu não vou me abaixar para caber, .
Ele desviou o olhar, e eu aproveitei para continuar.
— E também não posso, nem quero, pedir para você deixar a fila do trono. Não é justo. Essa é a sua vida. Mas a minha é outra. E elas simplesmente não se encaixam.
Ele se levantou, deu dois passos na minha direção, com aquele olhar que antes me desmontava.
— A gente não deve ficar junto. — continuei, sem tremer. — Talvez em outra vida. Talvez quando você crescer emocionalmente e entender que amar alguém não é só sobre manter aparência. Mas, por enquanto… eu te desejo felicidade.
— Não vai. — disse, e pela primeira vez a voz dele soou desesperada. — Por favor, não vai.
Respirei fundo, e doeu mais do que eu esperava.
— Eu não iria… se você não tivesse feito merda. — respondi, simples, sem gritar. — Mas você fez.
E, sem esperar que ele dissesse mais nada, peguei minhas coisas e fui embora. Com cada passo, senti que estava deixando para trás não só , mas todo o peso que ele trouxe para minha vida. Fechei a porta atrás de mim, sentindo um alívio que, por meses, parecia impossível. E, pela primeira vez em muito tempo, percebi que estava livre.
O convite chegou como tudo vindo da família real: elegante, calculado e impossível de recusar sem causar barulho. Uma carta breve, pedindo que eu fosse “conversar” no palácio. Não diziam sobre o quê, mas eu já sabia.
Quando cheguei, fui conduzida até uma sala menor — menor para padrões do palácio, ainda assim com teto alto, cortinas pesadas e uma lareira acesa, mesmo que o dia não estivesse tão frio.
Estavam lá dois dos tios de e uma assessora de confiança da rainha. Todos sorrindo de forma contida, como se aquele fosse apenas um encontro cordial.
— — começou um dos tios, cruzando as mãos sobre o joelho —, antes de mais nada, queremos dizer que… sentimos muito pelo que aconteceu.
A assessora completou:
— Foi um erro. está profundamente arrependido.
Permaneci calada, apenas observando.
— Você é a única que consegue mantê-lo firme, — disse o outro tio. — Desde que começaram a namorar, ele mudou. Para melhor.
As palavras eram ensaiadas, quase como se lessem de um roteiro.
— O que aconteceu… — a assessora escolheu cada palavra com cuidado — foi um deslize. E precisamos que você considere seguir em frente. precisa de você.
Não era sobre sentimentos, eu percebi. Era sobre necessidade. Sobre manter as coisas “controladas”.
— Ele está vulnerável agora — acrescentou o primeiro tio. — Se você se afastar, a imprensa vai atacar, e… bom, você sabe como isso pode acabar.
Senti um nó subir na garganta, mas não de emoção. Era raiva. Ali, pela primeira vez, entendi completamente: para eles, eu não era só a namorada dele. Eu era uma peça no jogo. Um peão que eles podiam mover para proteger o rei.
Mantive o tom educado.
— Eu entendo o que estão dizendo.
E entendi mesmo. Só que o que eles queriam não era que eu amasse — era que eu segurasse a versão dele que dava menos trabalho ao palácio.
Saí dali com um gosto amargo na boca. Porque, naquele tabuleiro, não importava como eu me sentia. Só importava que eu cumprisse o papel.
Capítulo 08
A sala de música estava empoeirada, como se tivesse ficado abandonada por séculos. As cortinas pesadas ainda deixavam passar um feixe de luz dourada, iluminando o pó suspenso no ar. Sentei no banco com o violão no colo, as cordas frias contra os meus dedos. Fazia semanas que eu não vinha ali — desde o término, desde que tudo desmoronou.
Apertei o acorde com cuidado, a madeira vibrando no meu peito. A melodia saiu hesitante no começo, mas logo minha voz se misturou com as notas, firme, quase como um desabafo.
“Don’t swear on your mom
That it’s the first drink that you’ve had in like a month…Don't swear on your mom
That it's the first drink that you've had in like a month
No, don't say it was just
An isolated incident that happened once
There's no need to pretend
I've never seen an ugly truth that I can't bend
To something that looks better
I'm stupid, but I'm clever
Yeah, I can make a shitshow look a whole lot like forever
And ever”
Para todos os enganos, desculpas malditas, a ingenuidade de acreditar em alguém que nunca mereceu tanto crédito.
“You don't have to lie to girls
If they like you, they'll just lie to themselves
Like you, they'll just lie to themselves
You don't have to lie to girls
If they like you, they'll just lie to themselves
Don't I know it better than anyone else?
As palavras doíam, mas de um jeito quase bom, como se cada verso cicatrizasse uma ferida..
“You don't have to lift a finger
It's lucky for you, I'm just like
My mother and my sisters
All my (all my friends)
The girl outside the strip club getting her tarot cards read
We love to read the cold, hard facts and swear they're incorrect
We love to mistake butterflies for cardiac arrest”
Eu estava tão imersa que só percebi quando senti alguém encostar na parede ao fundo, o som de um tênis raspando no piso. Levantei os olhos e lá estava ele.
.
O cabelo bagunçado caindo sobre os olhos, a velha camiseta preta da banda favorita, e o maldito piercing no lábio que brilhava sob a luz. Ele parecia exatamente igual e completamente diferente ao mesmo tempo.
— Faz tempo que eu não escuto você cantar aqui — disse ele, a voz baixa, quase um sussurro.
Um sorriso escapou sem que eu pudesse evitar. — Faz tempo que eu não cantava em lugar nenhum.
Ele caminhou até mim e se sentou no banco, ombro contra ombro, tão perto que meu coração resolveu acelerar sem nenhuma delicadeza. Olhou para o violão, depois para mim. — Continua lindo. O jeito como você se perde quando canta.
— E você continua péssimo em esconder o quanto você é meu fã. — Brinquei, tentando disfarçar o calor que subia no rosto.
Ele riu, aquela risada curta que sempre fez meu estômago revirar. Por um instante, foi como se nada tivesse acontecido — como se não houvesse mágoas, silêncios ou meses de distância entre nós.
— E essa música? É nova? — ele perguntou.
— É uma das minhas favoritas. Escrevi várias músicas para durante nosso relacionamento — respondi, com um risinho. — Quer escutar a outra?
Ele acenou com a cabeça, os olhos brilhando de curiosidade.
Comecei a tocar, e a melodia se tornou mais rápida, com um ritmo mais divertido, quase de deboche.
“Call us what we are, toxic from the start
Can't pretend that I was in the dark
When you met my friends, didn't even try with them
I should've known right then”
“That you were jealous and possessive So manipulatin'
Honestly, impressive
You had me participatin’ ” — cantei, rindo enquanto olhava para ele, que soltou uma gargalhada genuína.
“Back then, when I was runnin' out of your place
I said, "I never wanna see your face"
I meant I couldn't wait to see it again
We were toxic till the end
Uh-huh, 'cause even when I said it was over
You heard, "Baby, can you pull me in closеr?"
You were plotting how to stay in my head
Wе were toxic till the end”
Ele balançava a cabeça, rindo das minhas palavras e da forma como eu me divertia cantando sobre o absurdo do meu relacionamento.
“I can forgive you for a lot of things
For not giving me back my Tiffany rings
I'll never forgive you for one thing, my dear
You wasted my prettiest years”
— Caramba, — ele disse, ainda rindo. — Ele te deu tanto material…
— Ele me deu uma porção de dor de cabeça — completei.
— Eu senti sua falta, . — As palavras vieram rápidas, quase um deslize. Ele desviou os olhos, como se tivesse falado mais do que devia.
Minha respiração travou. Eu queria responder, queria dizer que também tinha sentido a dele em cada acorde que não toquei, em cada música que calei. Mas antes que eu conseguisse, a porta se abriu.
Uma voz clara interrompeu o silêncio carregado. — , você tá aqui?
Viramos ao mesmo tempo. Uma garota entrou, com os cabelos cacheados volumosos, a expressão segura de quem sabia exatamente onde pisava. Ela sorriu ao ver e caminhou até nós, apoiando a mão no ombro dele com intimidade.
— Ah, Bianca... — começou, um pouco sem jeito. — , essa é minha namorada, Bianca.
O nome e a palavra namorada bateram em mim como uma pancada. De repente, todo o ar da sala pareceu desaparecer. Uma tristeza e um aperto no coração me pegaram de surpresa. A música que ainda ecoava dentro de mim se desfez como fumaça.
Sorri, ou pelo menos tentei. — Prazer. Acho que vou indo. — Minha voz saiu fraca, quase irreconhecível.
Levantei sem olhar para trás, porque sabia que, se olhasse, veria dividido, e isso doeria ainda mais.
As notas da canção ainda vibravam nos meus dedos, mas agora pareciam só mais um lembrete cruel: eu tinha voltado tarde demais.
Apertei o acorde com cuidado, a madeira vibrando no meu peito. A melodia saiu hesitante no começo, mas logo minha voz se misturou com as notas, firme, quase como um desabafo.
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As palavras doíam, mas de um jeito quase bom, como se cada verso cicatrizasse uma ferida..
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My mother and my sisters
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Eu estava tão imersa que só percebi quando senti alguém encostar na parede ao fundo, o som de um tênis raspando no piso. Levantei os olhos e lá estava ele.
.
O cabelo bagunçado caindo sobre os olhos, a velha camiseta preta da banda favorita, e o maldito piercing no lábio que brilhava sob a luz. Ele parecia exatamente igual e completamente diferente ao mesmo tempo.
— Faz tempo que eu não escuto você cantar aqui — disse ele, a voz baixa, quase um sussurro.
Um sorriso escapou sem que eu pudesse evitar. — Faz tempo que eu não cantava em lugar nenhum.
Ele caminhou até mim e se sentou no banco, ombro contra ombro, tão perto que meu coração resolveu acelerar sem nenhuma delicadeza. Olhou para o violão, depois para mim. — Continua lindo. O jeito como você se perde quando canta.
— E você continua péssimo em esconder o quanto você é meu fã. — Brinquei, tentando disfarçar o calor que subia no rosto.
Ele riu, aquela risada curta que sempre fez meu estômago revirar. Por um instante, foi como se nada tivesse acontecido — como se não houvesse mágoas, silêncios ou meses de distância entre nós.
— E essa música? É nova? — ele perguntou.
— É uma das minhas favoritas. Escrevi várias músicas para durante nosso relacionamento — respondi, com um risinho. — Quer escutar a outra?
Ele acenou com a cabeça, os olhos brilhando de curiosidade.
Comecei a tocar, e a melodia se tornou mais rápida, com um ritmo mais divertido, quase de deboche.
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You had me participatin’ ” — cantei, rindo enquanto olhava para ele, que soltou uma gargalhada genuína.
“Back then, when I was runnin' out of your place
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Uh-huh, 'cause even when I said it was over
You heard, "Baby, can you pull me in closеr?"
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Ele balançava a cabeça, rindo das minhas palavras e da forma como eu me divertia cantando sobre o absurdo do meu relacionamento.
“I can forgive you for a lot of things
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You wasted my prettiest years”
— Caramba, — ele disse, ainda rindo. — Ele te deu tanto material…
— Ele me deu uma porção de dor de cabeça — completei.
— Eu senti sua falta, . — As palavras vieram rápidas, quase um deslize. Ele desviou os olhos, como se tivesse falado mais do que devia.
Minha respiração travou. Eu queria responder, queria dizer que também tinha sentido a dele em cada acorde que não toquei, em cada música que calei. Mas antes que eu conseguisse, a porta se abriu.
Uma voz clara interrompeu o silêncio carregado. — , você tá aqui?
Viramos ao mesmo tempo. Uma garota entrou, com os cabelos cacheados volumosos, a expressão segura de quem sabia exatamente onde pisava. Ela sorriu ao ver e caminhou até nós, apoiando a mão no ombro dele com intimidade.
— Ah, Bianca... — começou, um pouco sem jeito. — , essa é minha namorada, Bianca.
O nome e a palavra namorada bateram em mim como uma pancada. De repente, todo o ar da sala pareceu desaparecer. Uma tristeza e um aperto no coração me pegaram de surpresa. A música que ainda ecoava dentro de mim se desfez como fumaça.
Sorri, ou pelo menos tentei. — Prazer. Acho que vou indo. — Minha voz saiu fraca, quase irreconhecível.
Levantei sem olhar para trás, porque sabia que, se olhasse, veria dividido, e isso doeria ainda mais.
As notas da canção ainda vibravam nos meus dedos, mas agora pareciam só mais um lembrete cruel: eu tinha voltado tarde demais.
CONTINUA
Nota da autora:
Continua? Vocês que decidem…5 comentários e a história continua.
Nota da scripter: Eu amo uma fic, e é isso.
Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.
Nota da scripter: Eu amo uma fic, e é isso.